Estudo prevê enchentes até cinco vezes mais frequentes no Sul do Brasil até 2100

Pesquisa da UFRGS indica aumento de chuvas extremas em grande parte da América do Sul, enquanto Amazônia pode ter redução drástica das cheias

Ricardo Stuckert / PR

As enchentes na América do Sul devem sofrer mudanças profundas nas próximas décadas em razão das alterações climáticas. A conclusão é de uma pesquisa recente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), baseada em modelos climáticos avançados e simulações detalhadas de rios em todo o continente.

As projeções indicam que chuvas intensas de curta duração — em apenas um dia — podem aumentar entre 10% e 30% na maior parte da América do Sul. Eventos extremos considerados raros, com período de retorno de 100 anos, tendem a se tornar até 50% mais intensos na Amazônia e na Bacia do Orinoco, afetando cidades como Manaus, Belém e Iquitos.

O estudo também aponta forte impacto em áreas de relevo acidentado nos Andes. Nessas regiões, chuvas acumuladas em 20 dias podem crescer até 60%, elevando riscos de enchentes rápidas e deslizamentos em municípios como Cusco, La Paz e Puno.

No Sul do Brasil, o alerta é ainda mais contundente. Enchentes hoje previstas para ocorrer a cada cinco anos podem se tornar duas vezes mais frequentes. Já os eventos mais raros, de 100 anos, podem ocorrer cinco vezes mais. Cidades como Porto Alegre, Caxias do Sul, Blumenau, Curitiba e Londrina estão entre as mais expostas, com impactos previstos sobre infraestrutura urbana e hidrelétrica, além de prejuízos socioeconômicos.

Em contraste, a Amazônia, o Pantanal e a Ilha do Bananal tendem a registrar redução de até 80% nos fluxos máximos de rios como Amazonas, Juruá e Xingu. Com isso, cidades como Santarém, Macapá e Corumbá podem enfrentar cheias bem menos frequentes — cenário que também traz riscos, como desequilíbrio ecológico e alteração de habitats aquáticos.

Os pesquisadores reforçam que os efeitos das mudanças climáticas não serão homogêneos no continente. Enquanto o sul deverá conviver com inundações mais intensas e recorrentes, áreas tropicais podem sofrer com a perda dos ciclos naturais de cheia, fundamentais para a biodiversidade.

Os resultados, segundo o estudo, reforçam a urgência de políticas públicas de adaptação climática, com foco na proteção de populações vulneráveis e na resiliência de cidades e ecossistemas frente às transformações hidrológicas previstas para o fim do século.