Contaminação por Covid-19 é maior em áreas sem saneamento básico, aponta estudo

A falta de saneamento básico, um dos serviços de infraestrutura mais atrasados do Brasil, está indiretamente ligada às contaminações por Covid-19. A conclusão está em um levantamento divulgado nesta quarta-feira (24) pelo Instituto Trata Brasil e obtido com exclusividade pela CNN. Para chegar ao resultado, os pesquisadores cruzaram dados do SNIS 2018 (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) com as estatísticas diárias divulgadas pelo Ministério da Saúde.

O estudo mostra que a incidência de infectados a cada 100 mil habitantes chega a ser mais de 20 vezes maior no Norte do país, região menos desenvolvida em serviços de água e esgoto, do que nas regiões Sul e Sudeste — que caminham para a universalização.

O Amapá está no topo do ranking da incidência de infecções por Covid-19, com 2.292,3 casos confirmados por 100 mil habitantes. A taxa de coleta de esgoto no estado é de 7,14%.

Já no Paraná, o estado com menor taxa de incidência (104,2), 71% do esgoto é coletado.

Quando considerados os óbitos a cada 100 mil habitantes, cruzamento que envolve não só o ambiente em que as pessoas vivem, mas também as deficiências na rede pública de saúde, o Nordeste também aparece como um dos mais prejudicados, com destaque para o Ceará, que tem 58 óbitos a cada 100 mil habitantes.

O presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édson Carlos, explica que a falta de saneamento aprofunda ainda mais o abismo entre realidades em meio a uma pandemia como a que vivemos.

“A relação [entre saneamento e Covid-19] é indireta. Ou seja, a doença não vai lá pegar a pessoa. Mas, de forma geral, atinge essas pessoas que, por um histórico de vida, tem a saúde mais debilitada. É um vírus muito potente, que exige muito do sistema imunológico da pessoa. Se a pessoa vem de uma infância comprometida, com muitas internações, diarreia, desidratação, então, sim, essas pessoas tendem a sofrer mais por doenças ao longo da vida e são mais suscetíveis a problemas num momento de pandemia”.

Estagnação

Nos últimos 10 anos, o Brasil avançou somente 2,6 pontos percentuais no acesso à água, saltando de 81% para 83,6%. O país ainda tem 35 milhões de brasileiros (16%) sem acesso à água potável. Os dados constam no relatório de 2018 do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento).

Em relação à coleta dos esgotos, o acréscimo da população atendida foi de 7,8 pontos percentuais desde 2010, chegando em 2018 a 53,2% da população — cerca de 100 milhões (47%) permanecem sem acesso.

Em 2018, apenas 46,3% do esgoto gerado era tratado, o que significa jogar cerca de 5.700 piscinas olímpicas de esgoto por dia na natureza. No mesmo ano, o país perdeu 38,5% da água potável em vazamentos e roubos, num prejuízo de R$ 12 bilhões.

O Brasil garantiu à ONU que levaria água potável e esgotos a todos até 2030. Já no plano interno, o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), promulgado em 2013, pretendia universalizar o acesso até 2033, o que especialistas consideram impossível.

Ainda de acordo com o Instituto Trata Brasil, se o problema for resolvido em 20 anos, os ganhos econômicos, sociais e ambientais advindos do saneamento assegurariam ao país R$ 1,1 trilhão. Neste valor se incluem a economia com redução dos custos com a saúde, melhora da educação, aumento da produtividade, valorização imobiliária e renda do turismo.

*CNN