Misturar duas vacinas vira estratégia para destravar luta contra o coronavírus

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A Universidade de Oxford, criadora da vacina da AstraZeneca, é a que mais aposta na mistura de vacinas diferentes. Nesta quarta-feira, ela anunciou seus ensaios para experimentar a combinação de seu fármaco com o da Moderna e da Novavax. Este último, de origem norte-americana, deveria chegar nas próximas semanas. Em fevereiro, os cientistas britânicos já tinham começado a recrutar voluntários para a mistura AstraZeneca/Pfizer.

Matthew Snape, professor de pediatria e imunologia de Oxford, é o principal responsável por este ensaio e explica seus motivos em uma nota: “Se pudermos demonstrar que estes planos de combinação geram uma reação imunológica que seja tão boa como a das estratégias normais, e sem um aumento significativo das reações à vacina, isto poderia permitir que mais pessoas completassem a imunização contra a covid em menos tempo”. Snape cita outro argumento a favor do coquetel: “Poderia criar flexibilidade dentro do sistema no caso de indisponibilidade de qualquer das vacinas em uso”.

A falta não de uma, mas de duas vacinas (da AstraZeneca e da Janssen), é o que tem tornado esses estudos tão atrativos. A ideia de Snape e sua equipe é recrutar 1.050 pessoas maiores de 50 anos (mais vulneráveis à covid-19) e que ainda não foram vacinadas, ou receberam só a primeira dose. Eles vão testar todas as combinações possíveis da vacina de Oxford com as demais. Periodicamente, analisarão suas defesas, especificamente a produção de anticorpos neutralizantes. Quanto à cronologia da pauta, alguns receberão a segunda dose após oito semanas, e outros após 12. A universidade britânica espera ter os primeiros resultados no terceiro trimestre do ano.

Também a AstraZeneca iniciou há alguns dias seu próprio ensaio com o Centro Nacional de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, o órgão estatal russo criador da vacina Sputnik V. Seu plano é combinar ambas as vacinas em voluntários da Rússia, Belarus e Azerbaijão. Diferentemente dos ensaios de Oxford, a ideia é recrutar maiores de 18 anos. Os resultados só saem no último trimestre.

O problema é que alguns não querem ou não podem esperar até lá. Mesmo sem conhecer os possíveis efeitos da mistura, seja em termos de eficácia ou segurança, alguns governos europeus decidiram levar esses ensaios diretamente para a vida real. Primeiro foi a França, que anunciou que injetará vacinas da Pfizer ou da Moderna em menores de 55 anos que tiverem recebido uma dose da AstraZeneca.

E não são poucos: meio milhão de franceses, a maioria profissionais da saúde, permanece à espera da dose complementar. A Alemanha acabou de tomar uma decisão semelhante: seus 2,2 milhões de cidadãos menores de 60 anos que receberam a primeira dose da AstraZeneca completarão a pauta com a fórmula da Pfizer ou da Moderna. A decisão de trocar de vacina para a segunda dose não está isenta de dúvidas. A Organização Mundial da Saúde não recomendou essa medida por causa da ausência de dados sobre seus possíveis riscos e sua eficácia contra o coronavírus.

Essa falta de dados é destacada por Jaime Jesús Pérez, membro da Associação Espanhola de Vacinologia (AEV). “Para determinar a possibilidade de troca entre vacinas diferentes, o antígeno deve ser o mesmo ou muito similar, e a tecnologia precisa ser parecida”. Quanto ao primeiro requisito não há problema: todas as vacinas apontam para o mesmo alvo, as espículas que o coronavírus usa para grudar nas células humanas. O segundo é mais complicado: a vacina de Oxford usa um vetor viral como meio para chegar à célula, as de Moderna e Pfizer são de RNA mensageiro, e a da Novavax é a primeira a se basear em proteínas modificadas. “Não há dados sobre ser intercambiável”, recorda Pérez.

Aqui poderia ser útil a vacina russa Sputnik V. Essa é uma fórmula especial, pois não há outra entre as já aprovadas que adote o mesmo enfoque. Como na de Oxford, um vetor viral, um adenovírus, transporta informação genética do SARS-CoV-2 para que a própria célula humana saiba produzir a espícula, ativando a produção de anticorpos. Mas a diferença em relação à vacina britânica é que recorre a um adenovírus diferente em cada dose. Com isto, os seus criadores queriam evitar que o sistema imunológico se fixasse no transporte e não na carga. A Sputnik usa dois vetores virais diferentes, mas vetores afinal de contas. E, como diz o membro da AEV, “trata-se agora de plataformas muito diferentes, que não combinamos até agora porque não existiam”.

Ainda sem dados, não se pode saber como a mistura de duas vacinas diferentes afetará os indivíduos. Há trabalhos de laboratório com outros agentes patogênicos mostrando que a produção de anticorpos é maior quando se combinam imunizantes, em vez de usar o mesmo nas duas doses. Tampouco se sabe se esse coquetel poderia causar alguma reação ou efeito adverso. Entretanto, o virologista Ian Jones, da Universidade de Reading (Reino Unido), acredita que não deveria haver problemas: “Desde que se tenha determinado que cada vacina é segura em um ensaio independente, não existe nenhum risco ao combiná-las. Teoricamente, como o único componente comum é a proteína S [a espícula], só deveria reforçar a imunidade contra ela”.

 

*El País