Aos 73 anos, ex-funcionário do Hospital Espanhol relaciona trabalho a missão de vida

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Nos documentos, ele é Francisco Souto Perez e tem 73 anos. Na vida, é Paco. Mesmo no lugar onde passou boa parte dela, o Hospital Espanhol, na Barra, ninguém o conhece pelo nome de batismo. Até para os vigilantes, “Francisco” é um desconhecido. Para eles, o espanhol baixinho de óculos de grau do tipo aviador que está ali todos os dias há 26 anos é apenas Paco.

Mas, na verdade, só o título informalmente concedido por um dos conselheiros do hospital ajuda a entender quem ele é: “O guardião das chaves do hospital”, era a forma como o  apresentava. Francisco-Paco é praticamente a única pessoa que ainda trabalha no Espanhol, além dos vigilantes e de uma secretária. A instituição está fechada desde setembro de 2014, depois de uma grave crise financeira.

Desde aquela época, não recebe nada por isso – só ajuda de custo para gasolina. Agora, mais do que nunca, o trabalho está mais para missão de vida. A alcunha, por outro lado, ele minimiza. “É só porque tenho acesso e sempre que alguém precisa vir aqui, sou eu que levo”, diz, ainda que a resposta dispute com a imagem das três pencas de chave que segurava. Ali, tinha desde o código da porta do centro de diagnóstico por imagem até da antiga ala da terceira idade.

Vestido com as cores da Espanha, Paco segura as chaves do  hospital (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Diariamente, é possível encontrá-lo das 8h às 10h, subindo e descendo pelos corredores do Hospital Espanhol. No passado, estava lá gerenciando o sistema de refrigeração, que não podia deixar de funcionar no hospital, que tinha 270 leitos, quando foi fechado em 2014.

Agora, está ali para fazer rondas, ver se está tudo em ordem. “Era gente passando o tempo todo aqui. Agora, é poeira. Hoje mesmo, achei um cano que quebrou. Vou ter que consertar”, dizia, quando encontrou a equipe do CORREIO na manhã do último dia 19.

No auge, chegava às 7h e ficava até as 17h. Embora já fosse o dono de uma pequena empresa de refrigeração, o principal serviço era no hospital. Na época, tinha uma oficina na Boca do Rio – que funciona até hoje, próximo ao fim de linha – e uma versão menor, nos fundos do Espanhol. Sete funcionários trabalhavam com ele.

Poeira e dívidas
Em 2016, o cenário é outro. Não tem funcionários, apenas um sócio. Em janeiro, deve acabar de pagar as taxas indenizatórias aos ex-empregados – depois do fechamento, a empresa começou a andar mal das pernas. “Se minha empresa sofreu calote, os funcionários não têm nada a ver”.

O próprio Paco é autor de uma ação contra a antiga administração do Espanhol, mas prefere não falar sobre o assunto. Só diz que é devido aos dois últimos anos de trabalho. “Mas são mais de mil  queixas trabalhistas. A minha é só mais uma”, diz, resignado.

A oficina onde trabalhava, ele conta, está rodeada por mato e tem uma ou outra máquina perdida. Também quase não há necessidade de refrigeração, quando comparado com o passado. O ar-condicionado só funciona em espaços como a subestação de energia, a agência bancária que aluga um espaço no condomínio, os três consultórios que ainda resistem no Centro Médico e a ala de Tecnologia da Informação (TI).

A situação hoje é algo que não imaginava, nem nos piores momentos. “Triste. Tem dias que me dá vontade de chorar. Tem dias que eu choro”. Foi  a primeira de umas cinco ou seis vezes em que Paco segurou o choro, durante a entrevista. Em nenhum instante, porém, deixou de sorrir.

A chegada
Nascido em Pontevedra, na Galícia – ou “a uns 10 quilômetros de Portugal, bastando atravessar o rio” – Paco veio para a Bahia aos 15 anos. Depois da guerra civil e com a ditadura de Francisco Franco, a vida não andava boa na Espanha. “Até comprar pão era difícil”, lembra. O pai aceitou o convite de vizinhos que moravam em Salvador e veio primeiro. Seis anos depois, chamou o filho mais velho.

Paco passou 12 dias em um navio, antes de chegar ao Brasil. Dividiu um pequeno apartamento com outros quatro conhecidos, todos vizinhos da mesma vila em que moravam. Salvador era o destino final, mas, antes, pararam em Recife (PE). Era Carnaval. “Me encheram de talco lá. Eu só pensava: ‘meu Deus, onde eu estou?”. No dia seguinte, aportou na capital baiana.

Concluiu o ensino médio no Colégio Marista e não quis mais estudar.  Trabalhou com cerâmica, em fábrica de saco plástico, foi taxista, dono de restaurante e de padaria. Desse último, não gostou. Não tinha vocação para “ficar atrás de balcão”. Logo depois, decidiu investir na refrigeração – que descobriu na época dos sacos plásticos. Não sabia, mas já estava tomando rumo para o Espanhol.

rtemagicc_hospespanhol-jpgPara o futuro
Diante da vista para a Baía de Todos os Santos e para o Farol da Barra, Paco lembra dos tempos que passou ali. Sabe a data exata em que chegou: 2 de maio de 1990. Já era sócio e, na época, o Espanhol estava com problemas com o sistema de ar-condicionado. Veio, então, o convite do antigo diretor, Euzébio Cerdeira. Ele e Paco eram amigos desde a Espanha, onde estudaram juntos.

Só que, além da convivência com os colegas e da rotina, tem outras memórias: foi lá que nasceu a mais velha das duas filhas – Adriana, hoje com 44 anos – e o neto Matheus, 19. O Espanhol ainda foi o palco de sua luta contra o câncer de estômago, há 24 anos. Com mais de 70% do órgão tomado pelo tumor, a saída foi retirar o órgão.

 Como se sua história não fosse memorável o bastante, Paco não tem estômago. “Como ele costurou as tripas, eu não sei”.  Adriana, a filha, trabalhava como instrumentadora cirúrgica na instituição e participou da operação do próprio pai.

Nada, contudo, foi tão marcante quanto a morte do próprio pai, há 14 anos. Diabético, morreu no hospital, só para ligar ainda mais a história dos dois espanhóis – o da Galícia e o da Barra. Oito anos depois, foi a vez da mãe. De tão próximo, o guardião foi escolhido pelos sócios da instituição para integrar a diretoria de patrimônio, no ano passado. Otimista assumido, diz que vê bons tempos vindo por aí. “O que eu mais quero na vida é que isso aqui volte a funcionar e que os funcionários recebam o dinheirinho deles. Mesmo que eles (uma nova diretoria) não me queiram mais aqui, quero que o hospital volte”, diz, ainda que, no fundo, saiba que é difícil se imaginar sem o hospital – e vice-versa. (Correio)