Se estivesse entre nós, Raul Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945) celebraria 80 primaveras neste sábado, 28 de junho de 2025. O que ele deixou para o Brasil extrapola amplamente o universo do rock — e até mesmo da música popular. Sua marca na cultura nacional é profunda, incorporando desde experimentações filosófico‑esotéricas até reflexões sobre política e espiritualidade, estabelecendo uma identidade iconoclasta que ganha vida por meio do próprio Raul, sua persona máxima.

Raul se assemelha, em intensidade e influência, às grandes figuras da cultura pop contemporâneas dos anos 60 e 70 — como John Lennon, Jim Morrison — artistas que não só fizeram espetáculo, mas moldaram gerações . Ainda jovem, ele não aspirava ser músico: gostava de literatura — Jorge Amado era um ídolo — e liderava em Salvador um fã‑clube do Elvis Presley, sonhando em contar histórias. Porém, atraído pela cena musical, mudou‑se para o Rio de Janeiro e trabalhou por trás das câmeras antes de assumir o microfone.
Nos bastidores, Raul compôs para artistas da Jovem Guarda, produziu nomes como Edy Star, Diana e a dupla Leno & Lílian e lançou o pioneiro álbum “Vida e Obra de Johnny McCartney” (1971) — o primeiro disco nacional gravado em oito canais. Temas como reforma agrária, tortura e drogas o colocaram na mira da censura da ditadura.
Vieças da repressão militar também vetaram “Sociedade da Grã‑Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” (1971), sua audaciosa obra coletiva, inspirada nos Beatles, que unia humor e crítica social.

A década de 1970 marcou sua ascensão meteórica com os álbuns solo pela Philips: “Krig‑Ha, Bandolo!” (1973), “Gita” (1974), “Novo Aeon” (1975) e “Há 10 Mil Anos Atrás” (1976). Neles, Raul alternava canções simples e cativantes com épicos existenciais, com referências à ocultismo e filosofia — especialmente visível em “Gita”, que bebe da tradição do Vedanta e do misticismo crowleyano.
Até hoje, músicas como “Gita”, “Maluco Beleza”, “Metamorfose Ambulante” (que, aliás, é uma das 100 maiores da música brasileira segundo a Rolling Stone Brasil) e “Cowboy Fora da Lei” continuam pulsando em rádios, shows e playlists.
Sua carreira, no entanto, se diluiu nos anos 80 — afetada por excessos, dependência e conflito com a indústria. Mas ainda assim, em 1985, levou mais de 100 mil pessoas à praia de Santos e emplacou “Carimbador Maluco” em um programa infantil da Globo.
O último capítulo veio com a parceria com Marcelo Nova: a turnê “Anestesia” (1988‑89), seguida do álbum “A Panela do Diabo” (lançado em agosto de 1989, pouco antes da morte, e posteriormente certificado com disco de ouro), registrou um encontro entre o velho ícone e o rock da nova geração.
Legado e reverberação cultural
Além de sua discografia, Raul é homenageado hoje por séries como “Raul Seixas: Eu Sou” (Globoplay — estreia em 26/6/2025) e por peças, exposições, musicais e EPs comemorativos.
Novos artistas e fãs de diferentes gerações resgatam seu universo: fala de metafísica, atitudes desvinculadas dos padrões, autenticidade e questionamento social — elementos que seguem tão influentes hoje quanto na época da ditadura (). Como diz um fã ao G1:
“Para a música brasileira, o Raul é um artista único que tratava de temas complexos como metafísica, filosofia…”.
No cenário cultural contemporâneo, onde se fala em “toca Raul” como sinônimo de referência rock, seus ecos são mais do que sons — são atitudes.
Raul Seixas sempre foi sua própria obra-prima: o visionário, o filósofo rebelde, o contador de histórias, o mago subversivo. Ao completar 80 anos, seu legado se reafirma por meio da música — reeditada, regravada, representada — e por constantes homenagens midiáticas, transformando‑o num arquétipo vivo da contracultura, da liberdade e da irreverência no Brasil.



