Exposição celebra os 70 anos da Cáritas Brasileira com arte, memória e transformação social

Instalações celebram 38 anos da Cáritas Nordeste 3 e 70 anos da Cáritas Brasileira

A sede da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3, em Salvador, se transformou em espaço de memória, arte e reflexão social com a abertura da exposição Corredor de memórias, organizada pelo Comitê de Comunicação da entidade. A mostra integra as celebrações pelos 70 anos da Cáritas Brasileira e pelos 38 anos do Regional Nordeste 3 – este último celebrado nesta quinta-feira (28).

A iniciativa reúne instalações artísticas e fotografias com suportes textuais construídos a partir de experiências vividas nos territórios em que a organização está presente nos estados da Bahia e de Sergipe. Mais do que uma exposição institucional, o projeto propõe um percurso sensível pelas múltiplas dimensões da atuação da Cáritas, conforme destaca o idealizador, Allan Lusttosa.

No espaço, a arte aparece como linguagem de memória. Entre os destaques da exposição está a instalação Imaginários que Viram Voo, composta por pipas produzidas a partir de desenhos e ilustrações criados por adolescentes e jovens participantes do concurso literário promovido pela instituição desde 2015. Suspensas no espaço expositivo, as pipas simbolizam liberdade, protagonismo juvenil e resistência diante dos silenciamentos sociais.

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Como aponta o texto curatorial, a imaginação também é território de luta. A obra de Allan Lusttosa dialoga diretamente com o Programa de Infância, Adolescência e Juventudes (PIAJ) da Cáritas que atua na formação e fortalecimento da participação social infantojuvenil desde o início dos anos 2000.

A exposição reafirma que a memória não é apenas arquivo do passado, mas ferramenta de transformação social e construção coletiva. Como sintetiza um dos trechos presentes no espaço expositivo: “Onde o tempo guarda histórias e o ‘EU’ se recolhe para que o ‘NÓS’ se expanda em esperança”. As obras seguem em cartaz até novembro, na culminância celebrativa de 70 anos da Cáritas Brasileira.

Ao celebrar 70 anos, a Cáritas carrega, simbolicamente, a força do sete multiplicado pelo tempo. Não se trata apenas de uma contagem cronológica, mas da memória viva de uma missão que atravessa décadas cuidando da vida, defendendo direitos e alimentando esperanças coletivas.

Denúncia e reafirmação da vida

Com fotografias de Allan Lusttosa, o conteúdo revela como esses espaços se consolidam como territórios de denúncia das desigualdades e de fortalecimento das lutas populares em defesa da vida. Entre símbolos, corpos em caminhada e expressões de religiosidade popular, as imagens documentam experiências coletivas marcadas por resistência, esperança e defesa dos territórios.

Cáritas em Imagens reúne fotografias produzidas ao longo da trajetória da instituição, revelando ações desenvolvidas em comunidades urbanas e rurais. As imagens destacam experiências coletivas ligadas à organização popular, à solidariedade e à incidência política, reafirmando o compromisso da entidade com a defesa dos direitos humanos e da dignidade das populações mais vulnerabilizadas.

Economia Popular Solidária sobrepõe o Brasil oficial

A Economia Popular Solidária (EPS) como uma das áreas de atuação do regional Nordeste 3 da Cáritas Brasileira também ocupa espaço na exposição. “O Brasil das práticas solidárias sobrepõe o Brasil oficial” utiliza colagem e costura acompanhadas do texto do assessor regional e especialista em Economia Solidária, Inovação e Gestão Social (UFCA), Rafael Lopes. A obra evidencia a construção de alternativas ao modelo econômico centrado exclusivamente no lucro e reforça experiências de geração de renda e fortalecimento comunitário nos territórios acompanhados pela Cáritas.

Com forte dimensão poética e política, a exposição transforma o ambiente em superfícies de memória. A concepção da exposição é assinada pelo Comitê de Comunicação da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3, formado por Alan Lustosa, Ariadna Carmo, Fernando Mangabeira, Jardel Nascimento, Jerônimo Menezes, Laíse Ribeiro e Rafael Lopes. A montagem contou com a participação de Alexsandro Siqueira, Alan Lustosa e Jerônimo Menezes. A revisão dos textos foi realizada por Carine Lustosa e Rafael Lopes.

Engajamento coletivo

“Poder participar desse Projeto é como o sangue que percorre o corpo: algo vivo, pulsante e essencial. É revisitar memórias e, ao mesmo tempo, deixar novas memórias para aqueles que virão depois. É olhar cada detalhe imaginando como o outro enxergará a obra, entendendo que construir também é aprender. A memória é ancestral. Precisamos dela para não nos perdermos nos percursos da vida. A memória é vida”, destaca o agente Cáritas e membro do Comitê de Comunicação, Jerônimo Menezes.

Transformadas em suporte de memória, identidade e incidência política, dezenas de camisetas estampadas com campanhas, projetos sociais, mobilizações populares e ações educativas também se somam à instalação artística. A obra reúne peças produzidas ao longo de anos de atuação da entidade e se transforma em um grande mosaico visual da caminhada coletiva. As camisetas figuram como documentos afetivos e políticos onde cada estampa guarda fragmentos de momentos históricos, ações de enfrentamento às violências, iniciativas de EPS, projetos com juventudes e debates sobre democracia e direitos humanos. Em única composição, as estampas revelam a diversidade de pautas e territórios alcançados pela ação da Cáritas NE 3.

Águas que movem

Outra obra assinada pelo artista é a instalação “O que move são as águas”. Uma canoa presa à parede, impedida de navegar, revela simbolicamente o impacto da interrupção dos fluxos naturais das águas e as desigualdades no acesso aos recursos hídricos. Na obra, pequenas garrafas d’água carregam nomes de rios da Bahia e de Sergipe com volumes de armazenamento oscilantes – algumas permanecem quase cheias, outras reduzidas ao mínimo. A instalação transforma a água em metáfora política e social. “O que deveria correr livre aparece contido, medido, desigual”, descreve o texto curatorial da instalação.

Os conflitos em torno da água – que não dizem respeito apenas à natureza, mas às disputas sociais e políticas que atravessam os territórios – também são evidenciados simbolicamente por meio dos elementos expostos ao público. Já a instalação “Dois Tempos” representa a coexistência de projetos políticos e de mundo e a ruptura da lógica histórica de combate à seca, apontando para a transição do paradigma da convivência com o Semiárido como horizonte político, social e cultural impulsionado por redes da sociedade civil como a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), da qual a Cáritas faz parte.

Nesse contexto, a exposição reafirma a atuação da Cáritas Nordeste 3 na defesa da água como direito humano fundamental. A exposição também apresenta registros das Romarias da Terra e das Águas e de manifestações populares onde fé, espiritualidade e mobilização social se encontram.

Texto: Allan Lusttosa e Rafael Lopes