Time e torcida ignoram assassinato e sonham com holofote e grana por Bruno

Foto: Franco Júnior/UOL

 

 

A torcida do Poços de Caldas Futebol Clube não quer saber do passado de Bruno. Ao menos nas reações do último sábado (5), o assassinato de Eliza Samudio não era algo importante a ponto de nortear as reações durante o dia que marcou o retorno do ex-goleiro do Flamengo aos campos. Diante de um condenado pelo crime, os fãs do modesto time só queriam saber dos holofotes atraídos pela nova atração da cidade e os dividendos que aquela presença poderia render. Sim. Para grande parte dos presentes ao estádio Benedito Bandola, Poços de Caldas 2 x 0 Independente de Juruaia era apenas mais um jogo amador com a presença de um boleiro famoso. O condenado Bruno experimentava o assédio de antes da cruel história que devastou vida e carreira. Se o sorriso custava a aparecer no semblante de Bruno, no rosto de torcedores, companheiros e pessoas influentes no dia a dia do clube não havia constrangimento na exaltação.

“Achei muito boa a contratação para dar uma imagem para o time, pelo menos. A equipe está voltando de uma fase ruim do ano passado e a vinda dele pode ajudar em algum contrato com patrocinador. Ele em campo é um grande atrativo para a torcida, principalmente os flamenguistas. Quem gosta de futebol sabe que ele foi um profissional exemplar. Infelizmente tem esse extra-campo, mas a torcida está aqui para apoiar o time”, destacou Rafael Mira, torcedor do Poços de Caldas e responsável pela organizada “Kuati Loko”. Bruno foi tietado pelos torcedores desde o momento em que chegou, em um carro particular, para a partida. Durante o aquecimento do atleta, diversos torcedores ficaram no alambrado e puderam, inclusive, bater um papo com o goleiro entre uma defesa e outra.

Um torcedor mostrou a camisa do Flamengo de quando o goleiro foi campeão brasileiro em 2009, o que fez o jogador levantar os braços, em comemoração. E teve também são-paulino dizendo que admirava o goleiro e pedindo para ele “voltar pro Mengão”. Isso fez com que Bruno parasse por um momento o aquecimento e brincasse com a situação. “Tá com a camisa do São Paulo e pedindo para eu voltar pro Flamengo, poxa”, disse em tom de brincadeira.

 

Companheiros miram evolução

O goleiro Paulo César, de 18 anos, atuou o primeiro tempo da partida amistosa diante do Independente de Juruaia. Ele sabe que quando Bruno estiver em forma, acabará indo para o banco de reservas. Entretanto, ele se mostra feliz ao poder aprender com a experiência do companheiro.

“É uma experiência muito boa ter ele no time. Ele está me orientando bastante, me ajudando a evoluir. Tive a oportunidade de já treinar com ele em Varginha, isso vai contribuir bastante, porque com a proximidade e com a amizade dele vou crescer na posição”, comemorou.

O zagueiro Jacomeli, também de 18 anos, almeja atingir o mesmo sucesso que Bruno já teve no futebol e salientou o lado orientador do goleiro.

“Ele em campo passa uma confiança muito grande, porque você já joga sabendo que atrás tem um grande goleiro, um grande orientador e um grande jogador. Ele vai me ajudar muito. Estou no começo de carreira e ele é ídolo do Flamengo, sonho alcançar o sucesso que ele alcançou”, disse.

 

Sonho realizado, dizem rivais

Enfrentar o goleiro Bruno neste retorno ao futebol foi a realização de um sonho para o goleiro Darlin e para o atacante Paulinho, ambos do Independente de Juruaia. Darlin revelou idolatria por Bruno e disse ser uma pressão enfrentar o goleiro.

“Dentro de campo ele sempre foi um ídolo tanto meu quanto da maioria dos goleiros. Fico feliz que ele esteja retornando agora e torço para que tenha a cabeça no lugar porque pode chegar longe ainda. É uma pressão grande jogar contra ele, porque a gente vê de frente um cara consagrado do outro lado”, relatou.

Já Paulinho, além de realizar o sonho de jogar contra Bruno, quase marcou um gol no goleiro adversário. Ele revelou que no próximo confronto, que deve acontecer no próximo sábado (12), em Juruaia, vai balançar a rede.

“Ter jogado contra ele e quase ter feito o gol foi algo muito especial para mim. Jogo futebol amador e jogar contra um goleiro incrível como ele é uma felicidade. O problema é que ele tirou o meu gol, mas vou ter outra chance e dessa vez vou conseguir marcar”, brincou.

 

“Todo ser humano é falho”

Comandante de Bruno neste retorno ao futebol, o técnico do Poços de Caldas, Paulinho Ceará, comentou sobre as críticas ao time devido à contratação do goleiro e pediu para que a cidade abrace o time.

“Vejo com naturalidade as críticas. O todo ser humano é falho e tem a sua condição e acertar muitas coisas e errar. Então, dentro do lado profissional, vejo que se trata de um talento que jogou em uma das maiores equipes do Brasil, que é o Flamengo. Então, está tento a oportunidade de retornar às suas atividades. Questionamento vai ter sim, negativo e positivo, mas acredito que isso, com o decorrer do tempo e dos amistosos, já vai se mostrar algo tranquilo. Não cabe a nós julgarmos, porque nossa parte é dentro de campo. Nós vamos tratar o atleta da mesma maneira que os demais e o torcedor apaixonado por futebol vai ver que é um grande talento. Para nosso projeto dar certo, a cidade precisa abraçar o time”, comentou.

 

Decisão especial para atuar 

Bruno voltou ao futebol após conseguir, em julho, uma autorização judicial para retornar ao regime semiaberto. Ele cumpre pena pelo assassinato da ex-namorada Eliza Samudio, que aconteceu em 2010. A estreia no novo time foi autorizada pelo juiz Tarcísio Moreira de Souza, da Vara de Execuções Penais de Varginha, cidade onde o jogador vive. Como condição para que Bruno atue pelo clube, a decisão pede que ele saia de casa às 6h e retorne, no máximo, às 21h, em caráter excepcional. A cada partida que o jogador disputar, a autorização deverá ser renovada.

 

Fonte: Uol