Covid: Brasil contará 10 mil mortes no dia em que Bolsonaro chama churrasco

Após chegar a 145.328 casos oficiais e 9.897 óbitos por covid-19 ontem (8), o Brasil deverá superar a marca de 10 mil mortes oficialmente atribuídas à doença neste sábado (9), dia em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirma que realizará um churrasco. Os óbitos pela doença causada pelo coronavírus subiram um patamar no Brasil nos últimos três dias, chegando a 751 mortes registradas ontem. É o novo recorde de vítimas fatais contabilizadas em 24 horas: haviam sido entre 600 e 615 da terça à quinta-feira. E o número de vítimas é ainda maior, dados a defasagem na atualização dos dados e a subnotificação.

Mesmo assim, Bolsonaro debochou da pandemia em dois dias seguidos desta semana. Na quinta-feira (7), em entrevista coletiva, o presidente falou em um churrasco no Palácio da Alvorada e estimou os convidados em cerca de 30 pessoas. “Vamos bater um papo, quem sabe uma peladinha”, disse na ocasião. Ontem, Bolsonaro insistiu no assunto, em uma espécie de convocatória a seus apoiadores. “Vou chamar uns 1.300 convidados, mas quem tiver amanhã aqui, se tiver mil, a gente bota para dentro”, falou rindo.

Convite ou provocação, o fato é que o país está próximo de alcançar as 10 mil mortes oficiais por covid-19 mais rápido do que França e Estados Unidos — outros dois dos países mais atingidos nesta pandemia. Para o Brasil não bater as 10 mil mortes hoje, teria que registrar menos de 103 óbitos no dia, algo que infelizmente não ocorre desde 14 de abril.

Brasil deve chegar a 10 mil mortes mais rápido que EUA

Com base nos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o UOL fez um levantamento para comparar a velocidade com que outros cinco países chegaram a tal número de mortos. A lista considera a data do primeiro caso oficial e a da 10.000ª morte contabilizada. O Brasil diagnosticou seu primeiro paciente com covid-19 em 26 de fevereiro, portanto 73 dias antes deste sábado (9). Nesta mesma métrica, o Reino Unido chegou a 10 mil óbitos nos mesmos 73 dias; a França, em 75; e os Estados Unidos, em 79. Entre os países que já ultrapassaram essa marca de mortes nesta pandemia, somente Itália (60 dias) e Espanha (63) o contabilizaram mais do que o Brasil.

Esta comparação naturalmente requer cuidado, pois os países são diferentes demograficamente e também estão em momentos distintos dentro da pandemia: EUA e Brasil ainda veem seus casos de covid-19 escalar, enquanto os europeus parecem já ter passado pelo pico de contaminação. No entanto, a contraposição dos dados ao menos sugere que, no Brasil, a doença escala tão ou mais rápido do que nos países que contabilizam mais vítimas no mundo.

“O grande problema é a falta de testes. Há muitos casos que ficaram como suspeitos: tiveram uma Síndrome Respiratória Aguda Grave e suspeita de covid-19, mas nunca foram confirmados. Com os óbitos acontece a mesma coisa. E também há os óbitos [de covid-19] que, por vários motivos, nunca chegaram a ser internados, e parte deles é classificada como causa indefinida”, afirma Eliseu Waldman, infectologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Fonte: UOL