“Se o Lula quiser encarar as eleições, não tem discussão dentro do PT”, diz Wagner

Lançado candidato ao governo do estado pelo PT essa semana, o senador Jaques Wagner disse que a decisão já era aguardada e que seu nome estava à disposição do PT e do grupo. Nessa entrevista ao A TARDE, ele aproveita para mandar recado aos apoiadores de que essa não é a hora de tratar de 2022. O foco tem que ser o combate à pandemia. Wagner descarta ainda um rompimento da base. “Eu não vejo, sinceramente, possibilidade de rompimento”. Confira:

Senador, o PT lançou o seu nome como candidato ao governo em 2022 e pegou muita gente de surpresa. Como o senhor avalia?

Eu, na verdade, já tinha colocado meu nome à disposição do grupo e, evidentemente, meu interesse é que a gente mantenha a unidade. O PT teve reuniões regionais, reuniões da executiva e só fez confirmar o que eu já havia dito, que o PT disponibiliza o nome Jaques Wagner para a disputa de 2022. Mas eu tenho dito que nesse momento a gente tem que tratar daquilo que está na preocupação do povo brasileiro. Resumindo: vacina, auxílio emergencial e emprego, na ordem que você quiser. Então 15 milhões de desempregados, mais de 230 mil mortes, milhões de infectados e, portanto, esse é o foco. É óbvio que nós temos que encarar 2021 antes de falar de 2022. Por isso que a prioridade, assim como a do governador Rui, é atacar e tentar minimizar os efeitos desses três problemas: o desemprego, a pandemia e o mínimo para a sobrevivência das pessoas, que é o auxílio emergencial. Então meu nome estava e continua à disposição do PT e do grupo, e eu achei que o PT fez isso reconfirmando, eu não vejo nenhum óbice, apesar de eu concordar que não é hora agora de a gente estar tratando disso. Vamos tratar das preocupações do povo, que é isso que é nossa obrigação.

O senador Otto Alencar volta e meia é lembrado como um dos nomes do grupo para concorrer ao governo. Haveria espaço para uma segunda candidatura da base?

Então, isso que eu estou dizendo. Está cedo para ficar discutindo esse assunto. Eu acho que nem o PP, nem o PSD, nem o PT, nem o PSB, o PCdoB, o Podemos, o Avante… Todos os partidos que são do grupo estão preocupados em: 1, que o desempenho do governador Rui seja cada vez melhor; 2, para que a gente ajude o povo a superar essa fase tão dramática da situação. E eu acho que lá para o final do ano, outubro, novembro, é que a gente pode sentar para começar a discutir mais amiúde. Aí é claro, tem o nome de Otto, tem o nome de Leão, tem o nome de Lídice, tem vários nomes aí que eu acho que poderiam nos representar muito bem. Tem o meu nome, evidentemente, que é natural que seja o mais lembrado porque eu fui governador durante oito anos e, vou chamar assim, “fundador” desse grupo político que me orgulha muito.

Existe alguma ameaça de rompimento na base?

Eu não vejo, sinceramente, possibilidade de rompimento. Por dois motivos: primeiro, porque esse é um grupo político em que todos os partidos que estão nessa caminhada, todos cresceram e cresceram bem durante a nossa caminhada ao governo. Ou seja, é um grupo que não discrimina ninguém, abre espaço para todo mundo crescer: um cresceu mais, outro cresceu menos. E porque eu acho que as pessoas se sentem bem dentro do grupo e trabalham para nossa unidade. Então eu, sinceramente, não vislumbro nenhum racha. É óbvio que as vontades existem, então elas serão discutidas, mas eu acho que nós temos muita maturidade para saber que nesses 16 anos o desenvolvimento da Bahia foi extremamente superior a qualquer “16 anos” anteriores que se possa comparar. Na área social, na área de atração de empresas, na área da saúde, na área financeira, água, esgotamento sanitário, rodovia, tudo que você quiser. Saúde, educação, segurança, o equipamento todo de Polícia Militar, Civil e Polícia Técnica. Então eu, sinceramente, não vejo esse risco.

O ex-prefeito ACM Neto começou a pavimentar sua candidatura ao governo do estado. Ele é um candidato competitivo e chega fortalecido em 2022?

Olha, tem muita água para rolar. É impossível imaginar e traçar cenários. A política atualmente tem mudado muito rapidamente, eu acho muito difícil traçar cenários. Eu respeito qualquer adversário, acho, inclusive, que nesse momento ele passa por um mau momento, a saída da definição da presidência da Câmara dos Deputados estressou muito a relação dele com o partido, com os aliados. Portanto, eu acho muito cedo para falar. Mas eu não organizo time adversário, eu quero organizar o meu e a oposição organize o seu time. Em torno de qualquer nome, eu, evidentemente, encaro com respeito qualquer adversário.

Muito se fala sobre que posição o governador Rui Costa vai atuar na próxima eleição. Se o senhor pudesse dar um conselho ao governador, o que o senhor indicaria?

Conselho eu dou no particular, não dou em público, que não é a forma melhor de se dar conselho. Eu prefiro conversar com ele, converso muito. É claro que eu trabalho para ajudar, porque eu acho que ele tem uma excepcional avaliação. A Bahia é o maior estado governado pelo PT já há 16 anos, a maior longevidade de governo, um sucesso absoluto, ele com aprovação. Então eu sou torcedor do chamamento do PT para ele ocupar uma vaga na chapa de disputa presidencial em 2022. Se vai acontecer ou não vai, eu acho que é prematuro, até porque, eu repito: o foco do PT é atender à população. E repito: eu acho que essa discussão é ainda esse ano, mas ela pode acontecer lá para setembro ou outubro.

Essa semana o Delúbio Soares e o Vaccari Neto tiveram uma reunião com o vereador Suíca, falando sobre a candidatura de Lula em 2022. O senhor defende a candidatura do ex-presidente?

Essa decisão é dele. Eu agora estou preocupado que sejam devolvidos os direitos políticos dele, porque cada vez se comprova mais o que ele já dizia, a inocência e, na verdade, do circo que foi armado. Era uma operação claramente política com altos interesses dentro e fora do país. Óbvio que devolvendo os direitos políticos dele, a decisão só cabe a ele. Se ele tiver disposição e quiser encarar as eleições de 2022, não tem discussão dentro do PT.

A sucessão presidencial sempre interferiu nas disputas estaduais. O senhor acredita que a aproximação de ACM Neto com Bolsonaro será usada e terá impacto em 2022?

Olha, eu não sei, porque ele é um pouco errático. Ele era candidato até abril de 2018 e desistiu na prorrogação do segundo tempo. Agora, ele era Baleia Rossi junto com o DEM até o último momento, depois também desistiu nos 45 minutos do segundo tempo. Então eu não vou apostar no que ele vai fazer. Cabe a ele fazer, eu não sei se ele vai estar junto com Bolsonaro, separado, dizem que ele quer ser vice do Bolsonaro, aí eu não sei. Ele já tinha dito que não entrava no governo de jeito nenhum. Já tinha dito que João Roma é um “arquiamigo” dele. E João Roma vira ministro. Então eu não sei. O que ele fala não necessariamente está escrito. Então é melhor esperar, eu não quero me meter na montagem da chapa dele.

Só mais uma pergunta, não soa como extemporâneo o lançamento da sua candidatura, quase dois anos antes da eleição?

Na verdade, a minha candidatura já estava na cabeça de todo mundo, o tempo todo. E não só do PT, de outros partidos. “Ah, tem que ser você”. E eu tenho disponibilizado o nome e saído fora disso por conta disso. Porque eu acho que tem um ano inteiro para a gente governar e o ano que vem também. Então, repare, não tem nenhuma novidade em lançar meu nome. Vamos ser francos. Sim, era o mais previsível, inclusive. Como já lançaram outros. Se você for numa reunião da militância do PP, vão gritar “Leão 22”. Se você for do PSD, vão gritar “Otto 22”. Se for numa reunião do PSB, vão gritar “Lídice 22”. Então essas coisas são absolutamente naturais, todo mundo tem torcida. E eu, modéstia à parte, fiz dois governos eleito em primeiro turno sendo sucessor. É óbvio que tenho um reconhecimento. Mas eu só quero sair desse foco, não me interessa ficar respondendo o tempo todo sobre eleição. Eu sou senador, estou trabalhando pelo povo baiano. Ponto. É isso que me interessa.