Ao contrário do que diz Edson Gomes, Bolsa Família “não é esmola” e tira pessoas do trabalho análogo à escravidão

Comentário foi feito nesta terça-feira (24), durante programa de rádio; jornalista criticou declaração do cantor.

Foto: Blog do Valente

O apresentador do programa Levante a Voz, da Rádio Andaiá, e jornalista Léo Valente, do site Blog do Valente, comentou nesta terça-feira (24) a declaração do cantor de reggae Edson Gomes, que afirmou que “quem recebe Bolsa Família é escravo”. Para o comunicador, o Bolsa Família funciona como complemento de renda para muitas famílias e ajuda a evitar situações de exploração no trabalho.

Léo Valente relatou uma história vivida no interior do estado para exemplificar. Em uma cidade do sertão baiano, um pai de família foi chamado para limpar quatro tarefas de terra. O trabalhador cobrou R$ 80, mas o dono das terras ofereceu R$ 30. Mesmo diante das condições difíceis e do valor abaixo do esperado, ele aceitou o serviço.

“Eu já tinha contado aqui uma história para exemplificar o que é o Bolsa Família na vida de muita gente. Era uma situação que eu via lá em Valente, no sertão: uma pessoa pedia para alguém limpar quatro tarefas de terra, em anos de seca, e cobrava R$ 80. O homem respondia: ‘Não, eu só vou te pagar R$ 30’. O trabalhador olhava para aquelas terras, para o sol forte, e dizia: ‘Não, meu amigo, assim não. Então vou procurar outra pessoa’. E o outro insistia: ‘É R$ 30 aqui, pronto’. E aí o homem parava e pensava:

‘Poxa, não vou terminar isso hoje. Está tudo seco, tudo parado. Se eu não aceitar esses R$ 30, vou dar o quê em casa? Que pão vou comprar para meus filhos, que estão com fome?’. E, então, ele acabava aceitando aqueles R$ 30. Era uma humilhação. E isso, sim, é algo próximo da escravidão”, afirmou

O Bolsa Família foi criado para ajudar essas pessoas que foram humilhadas pelo empregador. Léo classificou o Bolsa Família como “barganha” e quem está vivendo do benefício não é escravo; escravo é ter que trabalhar todos os dias da semana sem direito a uma folga semanal, recebendo um salário que mal dá para pagar as contas básicas de casa e de sobrevivência.

“Mas, com o Bolsa Família, esse sujeito pensa: ‘R$ 30 não dá, não, meu amigo. Eu tenho pelo menos o Bolsa Família para receber no meu estado, para aliviar lá em casa, mas por R$ 30 eu não vou’. E aquele empregador que ouve isso hoje diz:

‘Está vendo o que o Bolsa Família está fazendo? Um monte de preguiçosos’. O Bolsa Família acaba sendo uma forma de barganha para muita gente. Sabe o que é escravidão? É ter que trabalhar de domingo a domingo. É trabalhar e ter apenas uma folga na semana, acordando cedo no dia seguinte. E, ainda assim, esse dinheiro não dá para pagar as contas”, afirmou.

Segundo o comunicador, “Edson Gomes, que cobra mais de R$ 200 mil por show, se apresenta toda semana e, muitas vezes, faz dois shows no mesmo período, é muito fácil abrir a boca e dizer que quem recebe Bolsa Família é escravo.” Para ele, talvez o Bolsa Família seja uma esmola diante do dinheiro que ganha, do sucesso que tem — e isso é justo.

O que Edson Gomes não considera é que o Bolsa Família é um complemento de renda para muita gente. Ninguém está recebendo esmola, porque esse é um direito. Esse dinheiro é nosso. É pago com os impostos de todos nós e retorna para o povo. É o dinheiro do povo voltando para o próprio povo, afirmou Léo.