
O diplomata baiano Jackson Lima, natural de Santo Antônio de Jesus, compartilhou um episódio marcante de racismo que viveu no início de sua trajetória no Itamaraty, antes mesmo de ingressar na carreira diplomática. O relato foi feito durante o programa Levante a Voz, da Rádio Andaiá FM em que ele destacou a necessidade de o Brasil desnaturalizar o racismo e ampliar a presença de pessoas negras em cargos de destaque.
Jackson contou que o episódio ocorreu quando aguardava o transporte para participar de uma entrevista do programa de ações afirmativas do Itamaraty, iniciativa voltada à inclusão racial na diplomacia brasileira.
“Eu estava ali arrumado, esperando para pegar o transporte para a entrevista, para ganhar a bolsa. E aí chega uma senhora loira e me pede para pegar um táxi para ela. Como era um hotel cinco estrelas e eu, um negro, estava arrumado na porta, ela achou que eu era o porteiro do hotel”, relatou o diplomata.
Segundo ele, o constrangimento da mulher após perceber o equívoco foi visível, mas o episódio ilustra algo mais profundo: o racismo estrutural e a naturalização de estereótipos.
“Ela ficou completamente ruborizada e me pediu desculpas. Ou seja, não é culpa daquela pessoa. É porque a gente naturalizou o fato de só ver negro em posição de serventia toda vez que vai a um lugar chique”, afirmou.
Para Jackson, é essencial que o país reconfigure essas percepções sociais, o que passa, segundo ele, por políticas públicas de inclusão e cotas raciais. “O que a gente precisa é desnaturalizar. Ter mais negros em posições de destaque, de comando, para que a sociedade comece a ver o seguinte: esse negro pode ser o gerente do hotel, não só o servente. Por isso que precisamos de políticas de cotas, para que a gente tenha uma sociedade que desnaturalize esse tipo de maneira de ver, subconsciente ou inconsciente”, defendeu.
Com uma trajetória marcada pela superação, Jackson Lima é ex-morador do bairro Irmã Dulce, em Santo Antônio de Jesus, e já trabalhou como ajudante de pedreiro e de camelô antes de alcançar o posto de diplomata. Hoje, fala quatro idiomas e já representou o Brasil em países como Zâmbia, Nigéria, Estados Unidos e Etiópia.
Sua história foi destaque em uma série do jornal Correio Braziliense, que homenageou mulheres e homens negros que ajudaram a construir uma Brasília mais justa, tolerante e plural. Para Jackson, sua trajetória é uma forma de mostrar a jovens de origens humildes que “é possível sonhar e vencer com estudo, persistência e autoestima”.




