Artista de escadaria na Lapa, Selarón é encontrado morto

O pintor e ceramista chileno Jorge Selarón, de 65 anos, foi encontrado morto na Escadaria do Convento de Santa Teresa, que liga o bairro à Lapa, na manhã desta quinta-feira, mesmo dia em que o Globo publica reportagem com o próprio artista relatando sofrer ameaças. O corpo de Selarón – autor do mosaico de cores que transformou os 215 degraus da escadaria num intenso ponto de visitação turística – permanece no local e está com marcas de queimadura. Ao lado dele, há uma lata de thinner – um solvente de tintas. O clima é de muita comoção no local, e diversas velas foram acessas. Um amigo do artista, que não quis se identificar, disse que ele andava muito depressivo desde que passou a ser ameaçado e que há mais de um mês o pintor vivia trancado em casa. Muito diferente do que o Selarón fazia habitualmente – que era passar o dia inteiro na escadaria conversando com turistas e mostrando seus trabalhos.

? A gente já esperava que ele chegasse ao limite e pusesse fim à própria vida. Ele andava muito triste e dizia que foi traído ? contou um amigo, aos prantos.

Ainda não há informações sobre a motivação da morte do artista. Em entrevista ao Globo, Selarón afirmava que estava sendo ameaçado por um ex-colaborador de seu atelier, cujo irmão e sobrinho estão presos por envolvimento com o tráfico de drogas na região. O ex-colaborador ameaçou esfaquear o artista em duas ocasiões para obrigá-lo a ceder os rendimentos obtidos com a venda de quadros.

? Eu ajudei muito esse rapaz. Mas ele cresceu o olho, queria tudo, queria os quadros, os lucros. E olha que eu o tinha mandado para Londres, Paris, Barcelona. Como não concordei com isso, as ameaças começaram em novembro do ano passado e não pararam mais. Ele não se conformou ? disse Selarón, ao Globo.

Tudo começou quando, em novembro, Selarón viajou de férias para Paraty e deixou Paulo pela primeira vez à frente dos negócios. O artista o conhecia há cinco anos, quando passou a lhe encomendar trabalhos impressos de suas pinturas. Na ausência do artista, o ex-colaborador começou a se desentender com outros colaboradores do ceramista, entre eles o secretário de Selarón, o argentino Cesar Gomez. Segundo Gomez, logo que Selarón retornou, o ex-colaborador pediu que o artista demitisse o próprio Gomez e mais outros dois.

? Selarón disse que não faria aquilo de jeito algum e resolveu romper com Paulo. Ele disse então que, se ele não ganharia mais dinheiro, Selarón também não ganharia mais nada. ? afirmou Cesar.

A situação se agravou mesmo na manhã de 23 de novembro de 2012, quando Selarón, como de hábito, pintava quadros na calçada de seu atelier na escadaria. O ex-colaborador, contou ele, derrubou seus quadros, danificando cavalete e material de pintura. Assustado, o artista foi à 7ª DP (Santa Teresa) registrar as ameaças, que mesmo assim não cessaram. Além de ameaçar Selarón, o ex-colaborador passou a amendrontar Cesar e acabou o agredindo no último dia 28. O delegado Eduardo Joaquim Baptista Filho informou, por meio da assessoria de imprensa da Polícia Civil, que o caso foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal.

O ex-colaborador é irmão de um preso que cumpre pena por tráfico de drogas e roubo a banco numa penitenciária federal de segurança máxima. Ex-chefe do tráfico no Morro Santo Amaro, no Catete, o traficante também era apontado pela polícia como um dos responsáveis pelo controle da venda de drogas na Lapa, que passou a ser articulada por seu filho. O irmão do ex-colaborador foi preso em dezembro de 2011 numa operação da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (DEAT).

Na escadaria, por sinal, o tráfico de drogas tem sido intenso, de acordo com depoimentos de pessoas que frequentam a região. Há cenas como traficantes oferecendo maconha e cocaína em voz alta ressaltando os preços. Usuários, segundo relatos, chegam a consumir nos próprios degraus.

Selarón iniciou sua obra na década de 1990, quando decidiu se radicar na Lapa e instalar azulejos na escadaria. O efeito visual passou a atrair turistas do mundo todo, e o artista vende seus quadros ali mesmo. Não à toa, muita gente a conhece como Escadaria Selarón. O lugar foi tombado pela prefeitura em 2005. (O Globo)