Ela fugiu de casa aos 16 anos para lutar. Com as armas que tinha ao alcance, enfrentou uma batalha dura, bateu de frente com a tirania machista e criou três filhos sozinha. Fez tudo isso por uma causa: a liberdade. Não, não se trata de Maria Quitéria, histórica heroína da Independência da Bahia. Estamos falando de Romilda Anunciação dos Santos, 50, que desde os 29 se veste justamente de Quitéria para celebrar o 2 de Julho.
Ontem, 192 anos após o fim da guerra que libertou a Bahia e o Brasil do jugo português, Romilda empunhou novamente sua espada de plástico envolta no papel celofane dourado. Deixou para trás sua principal arma: um carrinho carregado de brinquedos. No dia a dia, vende alegria para as crianças. ?Por ser feriado, hoje seria dia de ganhar dinheiro. Mas para virar Maria Quitéria, eu largo tudo?, disse ela, em frente à Praça da Soledade, onde há uma estátua da guerreira original.
Figura conhecida na festa cívica, poucos conhecem a trajetória de Romilda. Nossa Quitéria contemporânea chegou a morar em bocas de fumo. Hoje, reside no Marback, deve dois meses de aluguel e cuida de uma tia de 96 anos. No ano em que as guerreiras da independência foram homenageadas, muitas Marias Quitérias como Romilda, a caráter ou não, podiam ser encontradas no trajeto entre a Lapinha e o Campo Grande.
Marias Felipas e Joanas Angélicas também estavam por lá. Do alto do Convento de Nossa Senhora da Soledade, por exemplo, a freira Maria das Graças se debruçava na janela para ver o cortejo puxado pelos caboclos, que arrastava uma multidão. Aos 89 anos, 54 deles dedicados à vida religiosa, irmã Maria das Graças dizia se inspirar na coragem de Angélica, assassinada ao resistir à invasão das tropas portuguesas ao Convento da Lapa.
?Na época, até as religiosas enclausuradas foram tocadas pelo sentimento libertário. É obrigação nossa passar para o jovem de hoje esse exemplo revolucionário de heroísmo e patriotismo?, disse a irmã.
Perto dali, na Rua São José de Cima, quase chegando no Carmo, um grupo de mulheres negras ostenta torços na cabeça, um dos símbolos da capoeirista Maria Felipa. Há dez anos, elas desfilaram pela primeira vez para homenagear a heroína quase esquecida.
Por muito tempo, Felipa, guerreira que lutou na Ilha de Itaparica e ficou famosa por dar surras de cansanção nos seus inimigos, foi mantida como figura obscura. Hoje multiplica-se em dezenas nas ruas. ?Felipa foi esquecida porque era negra. Nossa luta é para resgatar sua imagem e trajetória?, afirmou Gildete Virgens, presidente da associação que mantém a Casa de Maria Felipa, no Curuzu. (Correio)



