Com perdas que chegam a R$ 41 mi, Fonte Nova quer dividir prejuízo com o estado

Os fãs dos Rolling Stones (com turnê brasileira prevista para janeiro), apreciadores de megashows e mesmo os empresários do trade turístico, que gostariam de uma alta estação mais atrativa, devem perder a esperança de que a Itaipava Arena Fonte Nova abrigue grandes espetáculos no curto prazo. A culpa é da contenda judicial acerca dos limites da lei do silêncio no local.

?O tempo para resolver a questão [validação dos novos limites] é o tempo da justiça?, disse à coluna o presidente da arena, Sinval Andrade. Segundo ele, a insegurança jurídica prejudica a captação destes eventos e os investimentos de patrocinadores.

As apresentações musicais retomadas a partir deste sábado ? Maria Rita e Marcelo Jeneci – têm por base liminar que obriga o espaço a obedecer os limites da lei anterior ? 70 decibéis após as 22 horas (estabelecidos para áreas residenciais) -, e mesmo assim com monitoramento da Sucom. Andrade explica que não foi feito nenhum investimento em isolamento acústico, só um trabalhão técnico de reposicionamento de palco e contratação de uma empresa privada para, ao lado da Sucom, garantir o cumprimento da sentença.

Os shows, de médio e pequeno porte, são fruto de uma nova frente de ação adotada neste período de incertezas: a produção própria. Para isto, o empreendimento fez parceria com a produtora Palco, de Salvador mesmo. A pró-atividade, diz Andrade, é um esforço tanto para mostrar ao mercado que o espaço é viável, quanto para aumentar as receitas do empreendimento.

Prejuízo divididoPor falar em receitas, Andrade resistiu aos questionamentos da coluna e não revelou nenhum número do balanço parcial da empresa neste ano. Garantiu que o resultado tende a ser melhor que os alcançados em 2013 e 2014 ? respectivamente, prejuízos de R$ 24 milhões e R$ 17 milhões. Porém, admitiu a possibilidade de, munido por cláusula de contrato público, procurar o estado para dividir parte do prejuízo acumulado. O contrato de Parceria Público-Privada prevê que caso o resultado operacional não seja igual ao previsto no ?caso base? descrito no edital de concessão, o prejuízo é dividido entre o estado, a operação e os clubes. O ?caso base? não prevê qualquer prejuízo.

Potencial prejudicadoAtualmente, as receitas da Arena vêm do futebol ? prejudicadas pela presença de Bahia e Vitória na série B, ?embora o Bahia tenha dado bons resultados na Copa do Nordeste? ?, do repasse dos cofres estaduais de R$ 1,5 milhão/mês como contrapartida pela construção e operação do equipamento ? ?pagas em dia? -, e das atividades chamadas não-futebol, longe da atingir o potencial por conta da querela judicial da Lei do Silêncio. ?As receitas do futebol tendem a zero [em termos de resultado] por causa do custo de manutenção, que não são integralmente cobertos pelo repasse do estado?, observou Andrade. Otimista, o dirigente acredita que até 2017 a arena será superavitária. Ainda sobre a dificuldade do momento, Andrade garantiu que as questões envolvendo os acionistas ? Odebrecht e OAS, que pôs sua fatia no negócio à venda ? não têm interferido no cotidiano da gestão do estádio. Lamentou apenas que o problema da lei do silêncio tenha surgido em um momento em que os patrocinadores se afastam do futebol (por conta das denúncias contra a Fifa e a CBF) para se dirigir aos grandes espetáculos.

Ações para aumentar a rentabilidadeLonge das lamúrias, o presidente da Arena comentou outras ações para aumentar a rentabilidade do negócio. Comentou que o novo contrato com o Bahia aliviou o empreendimento ao diminuir as parcelas fixas que teria de repassar ao clube e aprofundou a relação entre estádio e clube, o que pode gerar novas oportunidades de negócios. Ainda esta semana ele deve se reunir com a direção do Vitória para tentar um acordo para que o rubro-negro mande alguns de seus jogos no espaço que dirige. Uma equipe está trabalhando para captar eventos que seriam abrigados no Centro de Convenções da Bahia (CCB), fechado para reformas. Ele disse que as formaturas que a Fonte Nova abrigou até o momento foram uma solução de emergência para atender um pedido do estado, pois estavam agendadas para o CCB antes daquele ter tido as portas lacradas. Está sendo pensada ainda uma renovação no tour do estádio, com a inclusão de um Hall da Fama com os grandes jogadores da história baiana e a promoção de jogos com times formados por estrelas do passado.

Crise, classe C e comércioApesar de ser a mais impactada pela crise econômica, a classe C é a que melhor tem se saído em meio ao cenário adverso se comparada às classes A e B. A constatação é do sociólogo Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa Data Popular. Segundo ele, crise não é exceção e sim regra para a classe C, que está mais madura para cortar gastos de um lado e buscar bicos que aumentem a renda por outro. Meirelles ? que deu palestra no congresso da Alshop sobre varejo nos shoppings de Salvador na semana passada ? afirmou à coluna que a classe C mudou seu padrão de consumo, buscando melhor relação custo x benefício, está mais preocupada em pagar suas dívidas  ? ?para continuar comprando? ? e está mais exigente em relação ao atendimento que recebe das lojas, mas ainda é o grupo que mais consome e só este ano vai movimentar R$ 1,35 trilhão.

Meirelles disse ainda que as famílias brasileiras, comparadas com as de outros países, estão longe do limite de endividamento (por isso há espaço para o consumo) e que o problema do Brasil não é o crédito, e sim os juros, e que enquanto a inflação do país ficar em um dígito (até 9,9%) não há risco de diminuição do contingente de pessoas na classe C, hoje 56% da população brasileira. Para as empresas atingirem esse público, dá duas receitas: oferecer opções de marcas com diversas possibilidades de preços e atender bem, sem rotular o cliente. ?Quem vê cara, roupa ou relógio não vê bolso?, prega. Para ele, o lado bom da crise é que esse amadurecimento do consumidor da classe média emergente vai continuar no pós-crise. ?A empresa que não estiver preparada para lidar com essa clientela estará ferrada?, cravou.

A classe C baianaA classe C da Bahia, ante a de outros estados brasileiros, ainda segundo o presidente do Data Popular, é a que está enfrentando a crise econômica com mais tranquilidade. ?Os baianos da classe C estão mais focados em buscar bicos e saídas que lamentar a situação?, garantiu. Outra diferença captada pelas pesquisas do instituto: os baianos têm maior preferência por produtos locais ou produzidos no estado, um orgulho maior pela e pelo o que é da terra, aceitando mais o diálogo com marcas e produtos que se comuniquem por meio de músicas, artistas e referências culturais do seu território. Outra dica de Meirelles para alcançar e entender a importância da classe C para os negócios: ?A renda da classe C cresce mais que a das A e B. A renda dos negros cresce mais que a dos não negros. O Nordeste cresce mais que o restante do Brasil. A Bahia é isso, está no Nordeste, tem uma classe grande e maioria negra?. (Correio)