Diante das afirmações de demissão médica, fala de Dr. Francisco deixa subentendido à possibilidade de negociação

Na segunda-feira (12), durante uma reunião no Hospital e Maternidade Luís Argolo os médicos obstetras decidiram por demissão coletiva.

Atravessando a mais profunda crise administrativa da sua história, a Santa Casa de Misericórdia tem registrado vários episódios que demonstram uma situação de emergência, o mais recente deles, o aborto sofrido por uma parturiente no chão do hospital, por falta de médico plantonista.

Segundo o médico Francisco Freire, na semana passada, durante uma reunião realizada, todos os profissionais que médicos que atuam na unidade de saúde chegaram a um consenso de que os médicos vêm sendo penalizados pelas fatalidades que ocorrem no hospital, uma vez que, os fatos são decorrentes de problemas administrativos e falta de condições de trabalho. ?Nos preocupa o fato de que, no momento em que queremos fazer uma cirurgia, está sempre faltando matérias. E isso preocupa a gente, pois fomos formados para fazer o bem para as pessoas?, disse. Francisco sinalizou ainda, que os médicos não vão paralisar as atividades imediatamente, pois ainda estarão reunidos com Prefeitura, Ministério Público, Defensoria e Conselho Municipal de Saúde. ?Não seremos irresponsáveis ao ponto de pararmos amanhã, queremos sentar e conversar. Queremos trabalhar e queremos bom senso. Não estamos interessados em prejudicar o prefeito, mas se ele chamar todo mundo para uma conversa chegaremos ao que é melhor para a Santa Casa. O Sindicato Médico deverá trazer o setor jurídico, para através de uma carta dimensional, comunicarmos a decisão ao prefeito, governador e secretário de Saúde do Estado e demais órgãos. A partir disso, o Sindicato informará por quanto tempo deveremos trabalhar até nos afastarmos de nossas atividades?, disse.

Para Dr. Trigo, funcionário médico da Santa Casa Misericórdia há 37 anos, a unidade de saúde nunca enfrentou problemas semelhantes ao que está acontecendo agora. ?Chegamos ao ponto em que os atendimentos de convênio e particulares estão sustentando o atendimento do SUS. O dinheiro que entra é pra pagar matérias de cirurgia, alimentação e outros. […], chega um ponte em que vira uma bola de neve e não há como reverter?, expos.

Dr. Gilvando Couto sinalizou que há cerca de três anos o corpo médico vem protelando esta decisão de afastar-se das atividades. Boa parte dos hospitais da região não realizam partos em suas unidades de saúde e enviam as parturientes para Santo Antônio de Jesus, deixando para os médicos plantonistas a responsabilidade de atendimento e realização dos pastos. ?Mas é inadmissível que a Santa Casa de Misericórdia fique com um prejuízo de R$ 1.200,00 (um mil e duzentos reais), a cada parto. Somando tudo que é realizado pelo convênio e de forma particular não cobrem os gastos do SUS. Até o momento, o Estado não atendeu as solicitações, estão fazendo ouvido de mercador. Pouco se importam com a maternidade de Santo Antônio de Jesus. Quando vemos que o Hospital Regional recebe milhões para realizar atendimentos bons, não fazem e ainda recebem queixas. Por qual motivo não divide um pouco da fatia também? Quando um paciente morre, não responsabilizam a unidade de saúde e sim o médico que fez a operação. Chegamos a um patamar que não temos a mínima condição de realizar cirurgias?, sinalizou o médico com certa exaltação.

Para Dr. Antônio Carlos, a demissão coletiva em 100% já foi tomada, de modo que, em uma próxima reunião durante a semana, envolvendo o Sindicato dos Médicos e setor jurídico do Sindicato, as demissões serão assinadas e posteriormente entregues na Ouvidoria da Santa Casa. ?Não sei dizer de quem é a culpa, pois sou médico cirurgião e não participo da parte administrativa. Também não sou político e não serei nunca. Esse tipo de questionamento deve ser direcionado a Secretaria de Saúde, ao Estado e ao provedor da Santa Casa. Sou médico e minha decisão foi pedir demissão, juntamente com meus colegas, do SUS da Santa Casa?, informou.

Ao final das falas médicas, ficou uma sensação de inconsistência nos discursos. A demissão, ao que tudo indica, já era um fato confirmado, declarado através de entrevistas. No entanto, na fala de Dr. Francisco, o mesmo ainda fala em possíveis negociações e desejo de trabalhar de uma forma melhor.

Enquanto o Sindicato não se reúne com os médicos demissionários, os plantões continuam acontecendo na Santa Casa de Misericórdia pelo SUS.