"Vão dizer que a Copa foi ruim. Já está escrito", diz Cafu

ntegrante da Seleção tetracampeã e capitão da equipe vencedora do quinto título mundial, Cafu acredita que a Copa do Mundo no Brasil já está taxada como “ruim” antes mesmo de acontecer. O ex-jogador, que veio a Salvador para uma ação de sua instituição, a Fundação Cafu, elogiou a infraestrutura da capital baiana e disse que este é o principal legado do Mundial. Ele acredita que Felipão reuniu os melhores nomes do futebol nacional e confia no hexa.Qual é o objetivo da Fundação Cafu? Você tem perspectiva de abrir uma unidade em algum estado do Nordeste?É uma fundação que atua há dez anos com um trabalho de inclusão social, é uma instituição que tem como objetivo fazer com que as crianças tenham um pouco mais de objetivo na vida. Oferecemos cursos profissionalizantes, reforço escolar, curso de inglês, informática. Hoje temos 750 crianças de três a 17 anos no Jardim Irene, que é o bairro que eu nasci. É uma das minhas maiores paixões depois do futebol, é onde procuro ajudar pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive. Ela tem um núcleo só, no Jardim Irene, e queremos primeiro que essa matriz esteja 100% estruturada, caminhando com as próprias pernas para, depois, abrir braços da fundação pelo Brasil afora.Estamos a menos de 30 dias para a Copa do Mundo. O que você achou da lista de convocados do Felipão?Ótima. É o que nós temos de melhor hoje no futebol brasileiro, e eles todos estão presentes na lista do Felipão.Em entrevista ao A TARDE, Rivellino confessou que sentiu falta do Robinho na lista de convocados. Você teria feito escolhas diferentes?Não, não colocaria e nem tiraria ninguém da lista do Felipão. É uma lista boa, é a que temos para disputar a Copa do Mundo e a gente espera que esses atletas consigam corresponder à altura daquilo que estamos esperando.As laterais foram bastante importantes para as conquistas dos Mundiais de 1994 e 2002. Você acha que estamos 'bem servidos' com Daniel Alves e Marcelo? Daniel Alves não tem feito boas partidas…Ele é um grandíssimo jogador, o Daniel Alves. Ele fez uma grande Copa das Confederações como toda a Seleção Brasileira fez, também. A gente sabe do potencial dele, sabe do que ele pode fazer e tenho certeza de que o Brasil está muito bem servido, tanto com a lateral direita quanto à lateral esquerda. Com certeza.Você acha que o futebol brasileiro manteve o padrão de qualidade depois da conquista do pentacampeonato?Não, acho que perdeu um pouco em termos de qualidade. Hoje acho que estamos carentes nesse aspecto, carentes de ídolos, carentes de jogadores que façam a diferença. Nosso último ídolo foi o Neymar e, depois que ele foi embora, infelizmente ainda não conseguimos produzir ninguém à altura.E a Seleção? Você acha que faltou comprometimento ou garra dos jogadores que participaram dos Mundiais de 2006 e 2010, por exemplo?Não, acho que não. Quando as vitórias não vêm as pessoas procuram sempre uma justificativa para a derrota. No caso de 2010 foi falado que faltou garra, que ninguém estava comprometido em ganhar a Copa do Mundo quando, não, foi uma fatalidade a gente ter tomado um gol da maneira que tomou. Mas garra não falta, não, no momento em que você pisa em campo o que você mais quer é ser campeão e representar bem o seu país.Em 2012 você comentou que seria equivocado trocar o técnico da Seleção, na época Mano Menezes, faltando pouco mais de um ano e meio para a Copa. Você ainda mantém essa afirmação?Sim, mantenho. Acho que foi um erro gravíssimo terem trocado o Mano naquela ocasião, a um ano e meio do Mundial. Era um espaço muito curto de tempo para que qualquer outro treinador pudesse vir para a Seleção Brasileira. Até porque o Mano já estava fazendo um trabalho, tinha um planejamento, os jogadores já estavam assimilando o planejamento dele. Trocou-se, veio o Felipão, o Felipão conseguiu os resultados. Eu não critico a vinda do Felipão, quero que isso fique bem claro, critico a saída do Mano na maneira que saiu e na época que saiu. A Seleção que o Felipão convocou foi preparada pelo Mano, mudou um jogador ou outro, mas a base é aquela mesma que ele vinha trabalhando há três anos.Com o Felipão o esquema tático funciona como um detalhe? Qual seria a marca dele?Ele joga praticamente sempre com a mesma equipe, até para poder entrosar todo mundo. Claro que em determinados momentos do jogo você muda um jogador ou outro, mas o esquema tático dele continua o mesmo. Mas a marca registrada dele é o motivacional. Ele é um cara que motiva bem seus grupos, que consegue tirar o máximo de cada jogador, sabe cutucar na hora certa e na hora que o cara precisa ser cutucado.Você já levou um cutucão dele?Ainda não, porque sempre fui muito ciente daquilo que a gente precisava fazer. Eu, inclusive, ajudava a dar os cutucões.Em quem você deu?Ah, foi bastante gente! Lembro de vários, que ajudaram a gente a ganhar jogo. Lembro de todos os jogadores que levaram meus cutucões, mas não vou dar nomes, não! Deixa pra lá.Você acha que a Copa está muito politizada? Existe interesses para que ela dê certo e para que dê errado?Vão falar que o esquema da Copa foi ruim de todas as maneiras, não importa o resultado. Está escrito. O que não pode é a Copa do Mundo fazer parte de uma política que não tem nada a ver conosco. O jogador tem que entrar em campo e fazer de tudo para ganhar independente de qualquer partido político. É óbvio que os políticos vão usar para si o que eles acharem melhor, mas nós, jogadores, não, e acho que os cidadãos não devem pensar dessa maneira. Temos um problema gravíssimo no nosso país, que é um problema de política interna e que nós temos que resolver, só não podemos resolver através de uma Seleção de futebol.Nas cidades-sede em que você passou, você viu alguma melhora de infraestrutura, além dos estádios?Opa, com certeza! Todos os estádios melhoraram nas visitas que nós fizemos, e a infraestrutura das cidades está melhorando, também. Claro que não está tudo ainda 100% pronto, mas vai ficar. E quem vai usufruir disso tudo é o cidadão, porque o turista vai embora. No caso de Salvador é o povo baiano que vai usufruir da Fonte Nova, das avenidas novas, das tecnologias, do aeroporto novo…Na verdade, nosso aeroporto só vai ficar pronto depois da Copa do Mundo…Mas vai ficar. Não vai poder ficar do jeito que está, aquele monte de tapume, de estaca, não vai ter como ficar, vão ter que melhorar aquilo, concorda? Então, daqui a um mês e meio, dois meses, todo mundo vai embora. O aeroporto vai ficar e é o povo baiano que vai usufruir disso. Então é uma melhora que a Copa do Mundo acabou trazendo.É um legado, então?Sim, podemos chamar de legado. Se a Copa do Mundo não viesse para o país a Fonte Nova não seria reformada, o aeroporto não seria reformado, as vias novas, que estão ficando maravilhosas, talvez não fossem reformadas… Acho que isso tudo é um legado, sim.Quem se saiu bem nesse papo de legado foi o Corinthians, que ganhou uma casa…Pois é, fui no domingo ver o jogo lá na arena. Está ficando linda, vai ficar fantástica quando terminar.Você acha que o Itaquerão estará pronto para a abertura?Não. Não vai ficar tudo 100% pronto. A parte de acabamento interna ainda está longe de terminar. Porque o resto, dentro de campo, o gramado está em perfeitas condições, as arquibancadas estão fantásticas, que é isso que o povo vai ver.Mas o povo também vai ao banheiro na hora do intervalo… Você acha que para o turista essa vai ser uma visão ruim da infraestrutura do Brasil?Pro turista sim, o turista quer ver tudo funcionando dentro do estádio, o banheiro, a lanchonete. E nós também. Mas o turista vai embora, depois é a gente que vai usar isso tudo. Eu queria que tudo estivesse pronto, mas com base no que eu vi acho que não fica, não. Acho que é uma imagem ruim, que vai ficar difícil para reverter.Qual é sua expectativa para o Brasil em campo?A melhor possível. Vamos ser hexa. É uma obrigação jogar bem, acho que ganhar é uma consequência natural disso.Com tantas demonstrações de racismo acontecendo no futebol ultimamente, você teme que isso ocorra na Copa?Acho que não. O racismo é falta de cultura, de gente mal-educada, não civilizada, e estamos combatendo. Temos que banir, colocar na cadeia e dar punições severas para que essas pessoas nunca mais façam isso. Mas acho que não vai ter racismo na Copa porque os olhos do mundo estarão aqui, então se alguém fizesse isso certamente seria punido.