Professores indicam livros mais cotados para cair na prova do Enem

?Nasce daqui uma questão: se vale mais  ser amado que temido ou temido que amado?. Em 1532, quando lançou o tratado político O Príncipe, o italiano Nicolau Maquiavel talvez não imaginasse que a sua obra fosse atravessar séculos, se espalhar pelo mundo e ir parar em uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no Brasil, em 2013. O livro é um dos clássicos que, na opinião de professores ouvidos pelo CORREIO, não pode ficar de fora do repertório de quem vai fazer o exame daqui a 45 dias. E se você é um dos candidatos, é bom iniciar logo a maratona, pois a lista de possibilidades é extensa.

Diferente dos vestibulares tradicionais, o Enem não divulga uma lista de leituras obrigatórias, mas, ainda assim, para o professor de Filosofia Rosival Carvalho, ?algumas obras são fundamentais para o entendimento? dos candidatos, que buscam  uma vaga no ensino superior através do Enem.  Entre os principais, além de  O Príncipe, ele destaca O Mundo de Sofia, A Revolução dos Bichos, Capitães da Areia e Grande Sertão: Veredas.

Sobre a obra de Maquiavel, Rosival afirma que ela irá ajudar os estudantes a compreenderem o universo das relações de poder. ?De alguma forma, ajuda a ampliar as visões de mundo dos estudantes. Eles saem de uma visão generalista e não podem ficar presos aos elementos vistos na sala de aula?, explica ele, que também cita uma obra mais recente, envolvendo uma discussão da sociedade, como essencial para a prova. A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawn, publicado em 1994, retrata as transformações das relações humanas durante o século XX.  LiteraturaJá o professor de Literatura Evert Reis lembra que alguns livros, que antes apareciam com frequência nos vestibulares, também não podem ser deixados de lado, mesmo que não haja a lista obrigatória. Entre eles, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado em 1938.  A obra  retrata a trajetória de uma família nordestina, em processo de migração. ?Temos alguns clássicos indispensáveis, como Vidas Secas. Eu trabalho esse livro há 30 anos e nunca deixou  de ser útil. Ele une três disciplinas: geografia, literatura  e  história?, lembra. O professor destaca também a importância de entender as obras e os seus contextos históricos – quando foram escritas e publicadas. No caso da obra de Graciliano Ramos, ele destaca que a história é uma das que tiveram maior destaque. ?É um dos mais importantes livros da Era Vargas, trata sobre a desumanização do homem, inchaço das grandes cidades, o êxodo rural. Além de ser muito bem escrita, com um texto extremamente crítico e atual?, pontua. O livro faz parte da segunda geração moderna.Evert também lembra de outros livros importantes, como Iracema, Senhora e Lucíola, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mário de Andrade. Sem deixar de lado outros autores como Clarice Lispector, em A Hora da Estrela, e Carlos Drummond Andrade, com O Sentimento do Mundo. 

A estudante do terceiro ano do Colégio Villa Débora Vieira, 17 anos, lembra de outros: O Cortiço, de Aloísio de Azevedo, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que também teve um trecho usado em uma questão na prova de 2013. ?A gente faz muitas correlações com os movimentos literários e com contexto histórico. Algumas obras nos ajudam a entender melhor o que aconteceu em cada época?, ressalta a estudante. Débora quer cursar Engenharia Civil, mas, apesar de ser um curso da área de exatas, sabe reconhecer a importância da leitura, por exemplo, de romances históricos. ?Qualquer curso que você faz trabalha com interpretação. E o livro te dá isso, essa possibilidade de interpretar de várias maneiras?, pontua.InterdisciplinarComo o Enem tem uma prova temática e interdisciplinar, os professores também recomendam que os candidatos não se prendam aos livros de literatura e fiquem atentos a outras leituras. Para a professora de Redação Régia Rozana Pires, a leitura abre um mundo de possibilidades para os estudantes. ?Esses livros podem embasar o aluno na análise do contexto. Pode haver no livro uma situação que pode ajudá-lo na análise crítica. Se for um tema subjetivo, os livros podem auxiliar na interpretação?, diz.Dentro do amplo leque de leituras, o professor de redação Gilmar Costa inclui uma  publicação que poucos estudantes dão prioridade na preparação: a Declaração Universal dos Direitos Humanos. ?Se o estudante não a conhece, pode escrever algo e se comprometer. Como os temas estão sempre voltados para a vida social do indivíduo, essa leitura pode dar um bom suporte?, conta.