Travestis pagam R$ 50 a cafetinas para &#39trabalhar&#39 na rua

A prostituição das travestis vai muito além do livre arbítrio de fazer o que quiser com o próprio corpo. Descer para a pista, em Salvador, está condicionado ao pagamento de R$ 50 por semana às cafetinas ou às pessoas designadas por elas para fazerem a cobrança. Quem não paga está passível de sofrer represálias.

A reportagem percorreu oito áreas de prostituição de travestis localizadas na orla, no centro e na Cidade Baixa durante a noite e a madrugada dos dias 2, 3 e 4 de outubro. E constatou um estruturado esquema de “cafetinagem” em sete dessas áreas. São elas: Avenida 7 de Setembro, Avenida Barros Reis, Dois Leões, Itapuã, Piatã, Pituba e Sete Portas. Entre as áreas percorridas pelos jornalistas, apenas no Largo de Roma não existe cafetina, conforme depoimentos das travestis que atuam nesse ponto.

Os relatos dão conta de que a cobrança por “pagar a rua” existe em todo o país e geralmente é feita às travestis que vêm de outras cidades ou estados. Daí o nome “pagar a rua”.

Travesti negocia com cliente no bairro da Pituba (Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE)

As cobranças são feitas sempre na sexta-feira e, geralmente, são realizadas por outras travestis, prostitutas ou ex-prostitutas, acompanhadas por outras travestis e até mesmo homens que trabalham com elas. Mas quem controla o esquema não vai à rua cobrar.

“A cafetina vem, no carro, cobrar a pista acompanhada por mais cinco travestis. Se a travesti não tiver dinheiro para pagar, ela dá multa. Leva tudo que a pessoa tem. Se não tiver nada, descem as cinco [travestis do carro] para bater e até expulsar da pista”, contou uma travesti, que faz ponto na Pituba.

Na madrugada do dia 2 de outubro, uma sexta-feira, havia um carro preto com cinco travestis percorrendo as esquinas de prostituição na Pituba. E também uma travesti que percorria outros pontos a pé e, inclusive, conversou com a motorista do carro. Tanto esta última quanto a motorista do veículo vieram perguntar o que a reportagem estava fazendo.

“Eu já me prostituí, mas hoje faço um trabalho social com as travestis aqui na Pituba. Distribuo camisinhas e aconselho sobre sexo seguro e a importância de não se envolverem em brigas e crimes”, disse ela, ao mostrar uma sacola com dezenas de preservativos. A distribuição de camisinhas foi o mesmo argumento dado por uma suposta cafetina na Avenida Orlando Gomes, em Itapuã, no dia último dia 21. Ambas negaram a prática do crime.

Quem reside em casa de cafetina paga pela estada e não precisa pagar a rua. O pagamento também é semanal e varia de R$ 120 a R$ 150. “Quando a gente chega em um ponto, alguém vem logo perguntar 'você é filha de quem? Está na casa de quem?'. Se for uma cafetina conhecida, ninguém mexe com você. Mas, se não for, corre o risco de pagar duas vezes. Paga na casa e paga aqui na rua”, contou a travesti Sabrina, 18 anos, que é natural de Aracaju (SE) e está na casa de uma cafetina na Praça Castro Alves, próximo ao cinema Glauber Rocha.

A travesti Ticiele, 21, diz que já foi agredida quando trabalhava na Pituba. Mas preferiu não entrar em detalhes. A agressão fez com que ela optasse por pagar a rua mesmo não sendo obrigada, pois é da cidade. “Eu cheguei nova. Pago a rua para as antigas não mexerem comigo, não ficarem pedido para eu pagar lanche e bebidas. Nada forçado, mas é um constrangimento. Para não acontecer dessas coisas, para não ser mexida por outras, eu pago a rua. Pago para ter segurança”, disse ela. Isso porque, se acontecer alguma coisa com as travestis na rua, as cafetinas tomam providências.

“O negócio da cafetina só é pagar. Se não pagar, elas viram monstro. O negócio é não ficar devendo a rua, não passar do dia. Se não pagar na sexta-feira e não respeitar o prazo que elas deram, ganha doce”, contou a travesti Adriquiele, 21, cujo ponto é no Largo de Roma. E doce pode ser uma agressão física, a exemplo de corte no corpo com estilete, ter os pertences roubados, ser alvo de fofoca ou até mesmo ser expulsa do ponto de prostituição. (A Tarde)