Mateus Solano defende sexo em ‘Liberdade, liberdade’: ‘O ideal é que todas as novelas pudessem ter nudez’

Solano

De repente, num ato de imensa covardia, o rapaz é amarrado a uma corda e arrastado pelo chão por uma viatura. Apenas com uma cueca sobre o corpo ensanguentado, é obrigado, em seguida, a inalar a fumaça despejada pelo cano de descarga do veículo. As cenas chocantes estão cristalizadas, em mínimos detalhes, na memória de Mateus Solano: lá se vão 13 anos desde que estreou na TV como intérprete de Stuart Angel, filho de Zuzu Angel e vítima da ditadura militar, num dos casos retratados pelo programa “Linha direta — Justiça”.

À época, o então desconhecido ator já chamava atenção dos colegas de estúdio: tão logo terminou as sequências de sofrimento, desatou, sem vergonha diante da equipe, um choro doído de dentro de si, como se desfizesse um nó que amarrara para a ficção. Hoje, a realidade é outra. A experiência serviu de base para que não se consumisse pela dor — ou baixeza — de um personagem.

“Fui vendo que poderia deixar essas pieguices de lado, apesar de elas serem necessárias e continuarem dentro de mim, em algum lugar. Agora, dou risada de tudo. Trabalho com muito prazer, tanto para morrer quanto para matar. Aprendi que esse é o grande barato da profissão. É uma brincadeira séria, mas é uma brincadeira. É, na verdade, o que eu fazia quando era criança, gritando: Pow, pow, pow!”. Ressalta o brasiliense de 35 anos, vilão na novela “Liberdade, liberdade” como o carrasco Rubião, um inconfidente que de torturado virou torturador no folhetim: “Sem dúvida, é o papel mais diferente de mim. Estou navegando em águas desconhecidas”.

A onda turva arrebentou no momento certeiro, numa maré estrategicamente calculada após a ressaca provocada pelo Félix de “Amor à vida” (2013). Depois de protagonizar a história de Walcyr Carrasco — e (realmente) sacudir o país como o gay inicialmente enrustido —, Solano foi orientado pela emissora a descansar o corpo e a imagem. Era preciso: dos 220 capítulos da novela, o ator esteve em 218. Após o desfecho, o fenômeno não foi enterrado: arrebanhou nações da América Latina, da África e da Europa e ganhou fôlego em páginas e montagens na internet.

Não à toa o nome do personagem foi citado 17 vezes durante os 55 minutos da entrevista concedida pelo ator. É inevitável: em qualquer assunto, o substantivo próprio reina onipresente. Nas ruas, Solano é recorrentemente abordado para falar de Félix e do “personagem da novela das 11”, como a maioria se refere ao intendente de Vila Rica. Ele não liga:

A onda turva arrebentou no momento certeiro, numa maré estrategicamente calculada após a ressaca provocada pelo Félix de “Amor à vida” (2013). Depois de protagonizar a história de Walcyr Carrasco — e (realmente) sacudir o país como o gay inicialmente enrustido —, Solano foi orientado pela emissora a descansar o corpo e a imagem. Era preciso: dos 220 capítulos da novela, o ator esteve em 218. Após o desfecho, o fenômeno não foi enterrado: arrebanhou nações da América Latina, da África e da Europa e ganhou fôlego em páginas e montagens na internet.

Não à toa o nome do personagem foi citado 17 vezes durante os 55 minutos da entrevista concedida pelo ator. É inevitável: em qualquer assunto, o substantivo próprio reina onipresente. Nas ruas, Solano é recorrentemente abordado para falar de Félix e do “personagem da novela das 11”, como a maioria se refere ao intendente de Vila Rica. Ele não liga:

“Ficaria preocupado se o esquecessem. Espero que meus outros personagens sejam tão lembrados assim. É isso o que quero! Félix está voando por aí, né? Não preciso sair de casa para ele também sair. Isso é muito doido”.

Mesmo assim, o artista achou que precisava lançar um banho de água fria sobre o público. O retorno às telinhas aconteceu propositalmente sob a pele de figuras imprevisíveis — primeiro, veio o despachado Zé Bonitinho, da “Escolinha do Professor Raimundo”; mais tarde, surgiu finalmente Rubião, asqueroso e indigesto.

A matemática, porém, resultou equações surpreendentes: num lance do acaso, após abrir caminhos na teledramaturgia com o primeiro beijo entre homens numa novela brasileira, o ator assistirá, de camarote, à primeira cena de sexo gay na TV — as sequências previstas para 12 de julho envolverão Caio Blat e Ricardo Pereira, seus colegas na produção histórica. A coincidência é vista com bons olhos.

A aparição com o corpo nu ainda no primeiro capítulo da trama não foi motivo de reflexões ou receio. Ao seguir as orientações do autor, Mário Teixeira, Solano não previu, em momento algum, que pipocariam repercussões calorosas na internet.

“Acho superbacana. É chique, né?”, brinca, orgulhoso em participar de obras mais ousadas e irreverentes, que tocam em assuntos ainda tratados como tabu: — É como se gritássemos: “Vai, gente! Vai para a frente! Não é para ir para trás, não!”. Sou um cara que gosta muito de tradição, mas não da tradição homofóbica. Entendo a dor de deixar dogmas para abraçar inúmeras questões, como novas famílias, novas formas de ver o mundo, novas maneiras de se alimentar e novos jeitos de se locomover. É difícil, sim, deixar velhos costumes para trás. Ao mesmo tempo, precisamos caminhar para frente. No fim, vai morrer todo mundo, e isso daqui vai explodir. Temos que seguir adiante. Ou então vamos ser aquela gente que permaneceu no “Game of Thrones”, um povo que está no ano 10.000, mas vive na Idade Média. Não, não, não!

Fonte: Extra Globo