Brasil é único país do mundo a ter bebê gerado em útero transplantado de doadora morta

Uma menina paulistana prestes a completar 1 ano de idade é a primeira criança, no mundo, gestada por uma mãe que recebeu um útero de uma doadora falecida. O procedimento de sucesso ainda único no planeta foi realizado por uma equipe do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo no ano passado, e agora está sendo oficialmente relatado em artigo publicado ontem no prestigiado periódico científico médico “The Lancet”.

Vítima da chamada Síndrome de Rokitansky, a analista de recursos humanos X — que pediu para não ser identificada — só descobriu que tinha nascido sem útero aos 25 anos, após conhecer o atual marido e pai da criança.

COMO O TRANSPLANTE POSSIBILITOU A GRAVIDEZ
A receptora passou por tratamento de reprodução assistida, em que óvulos foram colhidos e depois fertilizados. Uma doadora falecida compatível foi encontrada e seu útero removido, num procedimento de cerca de 1,5 hora. O órgão retirado foi logo transplantado para a receptora, numa operação que durou 10,5 horas, com a conexão das veias e artérias, ligamentos e canais vaginais do útero. A receptora se recuperou da operação, tendo que tomar imunossupressores e outros remédios para não rejeitar o útero e evitar infecções. Sete meses depois do transplante, embriões obtidos pela fertilização in vitro foram implantados na receptora. O feto se desenvolveu normalmente e, 35 semanas e três dias depois, nasceu de cesariana. O útero transplantado também foi removido na operação. 

Conformada, ela, hoje com 34 anos, achava que assim nunca teria filhos naturalmente. Opinião que começou a mudar em 2014, quando descobriu por meio de grupo de apoio a mulheres com o problema do sucesso de operações de transplante de útero na Suécia. Mesmo assim, X não pensava que poderia vir a se beneficiar do procedimento, ainda experimental.

— Eu achava que isso ia demorar muito para chegar no Brasil, só daqui a dez anos ou mais, quando eu não teria mais idade para fazer — comenta.

Ledo engano. Então, os médicos Dani Ejzenberg e Wellington Andraus, do Centro de Reprodução Humana do HC da USP, que já tinham começado a trabalhar na técnica em experimentos com ovelhas, seguiam para Gotemburgo, Suécia, justamente para curso com Mats Brännström, profissional que liderou o desenvolvimento do procedimento na universidade da cidade.

— Ficamos lá uma semana e ele compartilhou o protocolo para uso da técnica em humanos — conta Ejzenberg.

De volta ao país, os médicos brasileiros continuaram seus estudos com animais, mas também logo iniciaram as tratativas para fazer as primeiras operações em humanos, com uma diferença fundamental: os úteros viriam de mulheres falecidas. Até então, todas as poucas histórias de sucesso do procedimento, com o nascimento de crianças vivas, no mundo tinham sido de transplantes do órgão de doadoras vivas.

Isto, porém, não assustou Ejzenberg e Andraus, dispostos a evitar seus consequentes problemas, sendo os principais a dificuldade de obter as doações e os riscos que a operação de retirada do útero representa para as doadoras.

— A vantagem de uma doadora falecida é que não temos o risco cirúrgico na retirada e ela é mais simples, mais curta e com um custo menor — destaca Ejzenberg. — Mas o mais importante é que isso ajuda a universalizar o acesso a esta opção. Para ter uma doadora viva, é preciso que em geral uma amiga ou parente se disponha a doar seu útero. Já o útero de uma falecida pode ser retirado junto com outros órgãos pelas redes de captação existentes.

Processo que duas mulheres com o mesmo problema de X aguardam ansiosamente que aconteça para terem a mesma alegria que ela junto da filha.

— Eu e meu marido estamos muito felizes — diz. — É um sonho realizado. Para estas mulheres que estão na fila, digo para não perderem a fé nunca. Hoje estou com minha filha nos meus braços, e amanhã podem ser elas.

*G1

 




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