
Há dois anos, a modelo Aline Weber pediu para trocar de lugar com um amigo norte-americano durante uma viagem que duraria seis horas até o Alto Xingu, no Mato Grosso. A ideia era ficar perto de um rapaz tímido, com 28 anos, nascido em uma cultura milenar e diferente de tudo que a modelo de 31 anos havia conhecido em viagens pelo mundo. “Can I exchange places?”, disse. O barco era pequeno. O pôr do sol tornou o céu alaranjado e os dois podiam desconfiar do que viria a acontecer.
Desde outubro de 2019, Aline e Pigma são noivos. O pedido foi feito pela internet: ele na Terra Indígena do Xingu. Ela nos Estados Unidos, onde morou por 13 anos até voltar para o Brasil no fim do ano passado. “Metade das minhas coisas ainda estão em Nova York”, conta.
Pigma nasceu, cresceu e trabalhou por dois anos como técnico em enfermagem no Xingu. Em 2020, foi funcionário temporário em um hospital em São Paulo durante a pandemia, mas ficou desempregado após o contrato ser encerrado. Assim, voltou como voluntário tentar conter o novo coronavírus no Xingu. Em julho, porém, Pigma perdeu a mãe para a doença.
Até a última sexta-feira (24), 5 indígenas morreram e cerca de 80 foram infectados na Terra Indígena do Xingu, de acordo com o serviço de saúde indígena (Sesai). Com poucos testes, muitas mortes e infecções não entram na conta. “A maioria está com Covid-19. Trabalhei sozinho para tentar ajudar, mas tá difícil”, diz o xinguano. “Não tem médicos, não tem enfermeiros. Então, está bem grave”, completa a modelo. A situação tem se agravado em diversas comunidades indígenas com alto índice de contaminação na Amazônia Legal, como mostrou reportagem in loco do “The New York Times”.
Nova visão sobre apropriação cultural
Aline era uma “turistona” clássica até conhecer Pigma. Do povo indígena, sabia o que viveu em viagens pela Amazônia e o que aprendeu na escola, embora soubesse que era mentira o tal do “descobrimento do Brasil”.
No Xingu, a modelo comprovou a desconfiança ao conhecer as cerimônias que já estavam aqui antes da chegada de portugueses e espanhóis, como a tradicional luta Huka-Huka, quando a vitalidade de jovens atletas é testada, e a arranhadeira, objeto com dentes de peixe cachorro que provoca sangramentos e diminui inflamações, de acordo com a tradição xinguana.
Os penachos, cores e pinturas indígenas já eram conhecidos por ela e bem usados pelos brancos como adereços na publicidade e na moda. A união acontece bem no momento que a discussão sobre apropriação cultural tem ganhado força já há alguns anos. E ela sabe disso. “Nos últimos dois anos, passei a prestar atenção e a me incomodar [com o uso elementos indígenas]”, diz Aline. “Penas eu não uso, pois gosto muito de animais. Mesmo que às vezes use couro no trabalho, não sou a favor de usar penas e essas coisas”.
Para Aline, é preciso investir e se conectar com povos originários antes produzir e sair vendendo adornos indígenas. “Esses dias, a gente estava em um mercado e tinha um produto com alguma coisa sobre índios. Até pensei: será que estão pagando alguma coisa [para eles]? É uma responsabilidade”, diz. Já Pigma diz que não se incomoda muito, contanto que não se tire sarro. “Depende”, sintetiza.
Aline já trabalhou para marcas como Louis Vuitton, Prada, Chanel, Balmain, Saint Laurent, Stella McCartney, Dolce & Gabbana, etc. No Xingu ela conheceu um nome pouco falado entre o ciclo Paris-Milão-Nova York ou em Santa Catarina, onde nasceu: o “kuarup”, a festa dos mortos. Um ritual fúnebre após o sepultamento e no qual adolescentes, reclusos do restante da aldeia ao entrarem na puberdade, são apresentados ao restante dos indígenas. Foi durante a celebração que Aline e Pigma trocaram os primeiros olhares.
Evidentemente, o aparecimento tempos depois de um indígena com uma noiva top model loira de capa revista gera comentários — inclusive, racistas. “Já ouvi: ‘nossa, trabalhou tanto! Por que está com indígena?’. Sinto um pouco de raiva para as pessoas se informarem mais, mas a maioria sempre apoiou bastante”, diz a modelo. “Às vezes dizem: nada ver, tá com modelo. Mas as pessoas têm que aprender tanto com o indígena como com a branca”, completa Pigma.
A modelo peitou. O levou para viajar pelo país e o apresentou a cardápios como o bobó de camarão, moqueca (ele não gostou), aos prédios surpreendentes das grandes cidades (que o deixaram surpreso), aos sotaques diferentes (ele estranhou) e ao núcleo da moda brasileira (chique).
Intercâmbio de experiências
Na infância, Pigma lembra-se de não largar do pé do primeiro branco que conheceu no Xingu, com uma curiosidade pueril compartilhada com outras crianças em relação ao estrangeiro. Não era um encontro incomum. A Terra Indígena do Xingu é a primeira grande área demarcada pelo governo federal em 1961, com mais de 7 mil indígenas de 16 etnias, e uma das mais populares devido ao sertanista branco Orlando Villas Bôas, diretor da reserva em 1965.
Novo coronavírus ameaça Xingu
O novo coronavírus é mais uma dessas ameaças sanitárias e forçou a transferência de lideranças indígenas do Xingu para as UTIs em grandes cidades. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), porém, recusou-se a comprometer o governo federal a garantir água potável, leitos emergenciais, UTI, compra de ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea.
“Essa sensação de desespero e angústia, de perda repentina de pessoas próximas por causa de um vírus desconhecido que se espalha e mata rapidamente, é o que os indígenas têm vivido desde a chegada dos primeiros europeus e suas doenças”, afirmou a médica sanitarista e mestre em antropologia Sofia Mendonça, coordenadora do Projeto Xingu, da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), que atua na área indígena no norte do Mato Grosso, em entrevista para Ecoa.
Em junho, Aline participou de uma campanha para promover um leilão com joias preciosas cujo valor será enviado para o combate à Covid-19 entre povos indígenas. “Muitas pessoas precisam de medicação. Conforme chega, a gente trata os pacientes e vai acabando”, diz Pigma.




