A agonia de ter acordado e visto a casa tomada pela água ainda assusta a diarista Mirian Marques, 39 anos. ?Quando despertei, umas 4h, a água já estava dentro de casa. Socorri minha mãe de 77 anos e minha filha, que está grávida de 6 meses, e fui tentar salvar o que podia?, conta a moradora do bairro Ideal, um dos mais afetados pela enchente que atingiu Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo, na madrugada de sábado. Em sete horas, choveu cerca de 90 mm, o que era esperado para três dias. Com a intensidade do temporal, o Rio Subaé subiu 3 metros e transbordou, atingindo diversas residências e deixando cerca de 1.500 famílias desalojadas, segundo a Defesa Civil do município. Apesar de a prefeitura ter disponibilizado a Escola Estela Mutti como local para alojamento, ninguém dormiu no local, e preferiu ficar na casa de parentes, vizinhos e amigos.
Tragédia duplaNo quarto agora vazio, Mirian tentava, em vão, contabilizar os prejuízos causados pela enchente. ?Foi muita coisa que se foi. Eu ainda não sei o quanto perdi porque não tive cabeça para ver isso. Foi um desespero atrás do outro?, disse ela. Na sexta-feira, ela havia perdido o marido, morto depois de sofrer um acidente enquanto trabalhava em uma obra.No sábado, perdeu os móveis e toda a comida que tinha na dispensa. A chuva que fez estragos na casa da diarista também atrapalhou o enterro do marido. Por pouco, a água não estragou o caixão, que foi tirado do velório e levado às pressas para uma capela mais alta, para que não fosse arrastado pela correnteza.
Segundo os moradores, a cheia do Subaé é uma situação recorrente. Hoje, por exemplo, completa 5 anos que a cidade enfrentou outra grande enchente. ?Moro aqui há mais de 20 anos e sempre aconteceu isso. É assim: a água vem, leva tudo. Aí eu volto, limpo a casa e espero até o dia que isso não volte a acontecer?, disse a lavadeira Regina Pereira, 57. Mesmo tendo enfrentado outras enchentes, ela conta que a dor de ver tudo que conquistou sendo arrastado pela água é sempre muito forte. ?Toda vez que acontece, me desespero. Agora é lutar para conseguir reconstruir a vida?, diz a lavadeira, que mora em uma região mais baixa do bairro Ideal, às margens do Subaé. Nessa parte do bairro, a água chegou a subir 2 metros e deixar algumas casas quase totalmente submersas.Em meio aos móveis destruídos pela enchente e empilhados nas portas das casas, os moradores tentavam recomeçar com o que havia sobrado após a inundação. Era possível ver famílias inteiras lavando o interior das casas, tirando a lama das roupas, móveis e até os mantimentos. ?A gente vai lavar tudo pra ver o que aproveita. Ninguém imaginou que fosse acontecer uma coisa dessas?, afirmou a bordadeira Rita Maria dos Santos, 49, que viu a água subir até o telhado de casa. Depois de perder ?quase tudo?, o que inclui as compras do mês que havia feito na quinta-feira e a cama que havia comprado na segunda, o barbeiro Antônio de França, 37, pensava em como reverter o prejuízo. ?Agora não tem jeito: é tentar resolver. Vou ver se compro uns móveis no cartão porque tem coisas que não dá pra ficar sem, como a máquina de lavar e o liquidificador?.AtençãoEntre as 1.500 famílias desalojadas, segundo a Defesa Civil local, estão pessoas que ficaram temporariamente sem poder entrar em suas casas por causa da água, mas que não chegaram a perder as residências. Moradora do Sacramento, a auxiliar de dentista Ednice Sales, 43, está abrigada, na casa da amiga, a aposentada Ana Lúcia Moraes, 69. ?Ela chegou aqui de madrugada, desesperada. Gritando, nervosa, toda enlameada. Eu acolhi, é claro?, contou Ana.
Enquanto caminhava em cima dos pedaços de madeira que até sexta formavam seus móveis, Ednice pensava no retorno para sua casa. ?Eu queria muito voltar para a minha casa, mas como eu vou fazer isso? A casa está cheia de rachaduras. O pessoal da prefeitura disse que está condenada?, contou Ednice. Segundo ela, a prefeitura tem oferecido pouca assistência aos desalojados. ?Eles mandaram uma cesta básica com pouca coisa. Eles precisam nos ajudar?, clama.O sentimento de falta de apoio é compartilhado pelos moradores da Baixa da Égua, uma localidade do bairro Sacramento. Lá, dezenas de famílias que vivem em barracos feitos de plástico afirmam que nenhum funcionário da prefeitura visitou o local para auxiliar os moradores, que também tiveram suas casas invadidas pela enchente. ?A chuva destruiu tudo e ninguém veio aqui ver a situação da gente?, afirmou a catadora de materiais recicláveis Joseane Santos.Procurada, a prefeitura afirmou que está arrecadando e distribuindo cestas básicas, colchões e cobertores nos bairros mais atingidos – Bonfim, Sacramento e Ideal. A administração municipal disse ainda que a doação começou a ser feita ontem e, por isso, alguns pontos, como a Baixa da Égua, ainda não foram atendidos.A chuva também afetou comerciantes como Lídio Barbosa, 71, dono de uma casa de rações para animais. ?Perdi todo o milho que eu tinha comprado pra vender em um mês. Você luta tanto pra ver a água chegar e levar tudo desse jeito?, afirmou. Segundo a Polícia Civil, houve saques em três lojas de móveis após o alagamento.Entre os feirantes, o prejuízo era ainda maior. ?Pensei em ir lá salvar, mas não deu. Acabei perdendo as minhas mercadorias. Quando vi tudo lá enlameado, me veio lágrimas nos olhos?, disse a feirante Ana Luzia Alves, 44. (Correio)



