
Uma nova audiência sobre o caso de Davi Fiúza será realizada nesta segunda-feira (25), às 8h, no Fórum Criminal Desembargador Carlos Souto, no bairro de Sussuarana, em Salvador. O jovem negro está desaparecido desde 2014, após ser levado por policiais militares no bairro de São Cristóvão. Passados quase 12 anos, o caso segue sem समाधान, sem responsabilização dos envolvidos e sem respostas concretas à família.
O processo é marcado por uma série de falhas apontadas por organizações de direitos humanos. O reconhecimento do desaparecimento como forçado ocorreu tardiamente, em desacordo com recomendações internacionais. Além disso, as buscas iniciais demoraram meses para começar e foram conduzidas sem planejamento estruturado, sem coordenação adequada e sem participação da família.
Ao longo dos anos, a investigação também enfrentou períodos de paralisação, atrasos sem justificativa e ausência de transparência. Até o momento, não há conclusões oficiais sobre o paradeiro de Davi.
A mãe do jovem, Rute Fiúza, convive com a incerteza desde o desaparecimento do filho e segue à frente da luta por justiça. “Arrancaram de mim o direito mais básico de uma mãe, que é saber onde está o seu filho. Eu vivo há mais de dez anos nessa tortura, sem resposta, sem verdade, sem poder sequer viver o meu luto. Não é só a ausência de Davi que dói, é o silêncio, o descaso, é sentir que a vida do meu filho não importa. Mas eu sigo lutando, porque eu não posso e não vou aceitar que a história dele termine assim, sem justiça”, desabafa.
O caso passou a ser acompanhado pelo Comitê de Desaparecimento Forçado da ONU após denúncia da Anistia Internacional, que vem cobrando respostas do Estado brasileiro. Segundo as entidades, as respostas apresentadas até agora são consideradas insuficientes.
Para especialistas, o caso evidencia problemas estruturais. A assessora de advocacy da Iniciativa Negra, Sara Sacramento, aponta que há um padrão de desigualdade racial no acesso à justiça. “Não se trata de falhas isoladas, mas de um padrão de funcionamento que evidencia desigualdade racial no acesso à justiça. Há demora, falta de prioridade e ausência de responsabilização quando as vítimas são jovens negros”, afirma.
Ela também destaca o impacto da demora para as famílias. “Justiça, nesse caso, significa dizer o que aconteceu com Davi, responsabilizar os envolvidos e garantir à família o direito à verdade. O que vemos hoje é a continuidade de uma violência que não terminou em 2014”, completa.
A diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, reforça que cabe ao Estado investigar com rapidez e independência, além de assegurar reparação às famílias. “O que aconteceu com Davi não diz respeito apenas a uma família. Diz respeito ao tipo de país que estamos permitindo construir quando um adolescente negro desaparece após ser levado por agentes do Estado e, mais de dez anos depois, sua mãe ainda segue sem respostas. Dona Rute não deveria carregar sozinha essa espera, essa dor e essa incerteza. O caso de Davi Fiuza é um retrato cruel de como a violência de Estado racista atinge as famílias negras no Brasil. Enquanto não houver verdade e responsabilização, essa ferida continua aberta para toda a sociedade”, conclui.



