
A rotina de Ana Beatriz Oliveira, de 13 anos, mudou desde a primeira menstruação, aos oito anos. A adolescente convive com fortes cólicas menstruais e já precisou interromper atividades como a dança, além de faltar frequentemente à escola por causa das dores.
“Esse ano em específico, fiquei com muito medo de repetir por falta”, relatou a estudante, que estima já ter perdido pelo menos 12 dias letivos desde o início do ano.
A situação enfrentada por Ana Beatriz reflete a realidade de milhões de adolescentes brasileiras. Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (27) pelos Instituto Alana e Equidade.info aponta que quatro em cada dez meninas que menstruam faltam à escola ao menos uma vez por mês devido aos sintomas menstruais.
Segundo a pesquisa, cerca de 3,6 milhões de estudantes convivem com esse problema no país.
O estudo também revelou que seis em cada dez meninas sofrem com cólicas moderadas ou fortes, capazes de comprometer atividades diárias e até exigir uso de medicamentos.
Entre as estudantes que faltam às aulas por causa da menstruação, 20,5% perdem um dia por mês, enquanto 16% ficam afastadas entre dois e cinco dias mensalmente.
A pesquisa foi divulgada durante a semana do Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado em 28 de maio, e ouviu 2.551 estudantes, além de professores e gestores das redes pública e privada de ensino em todo o Brasil.
Para Sofia Reinach, líder da iniciativa sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana, o tema ainda recebe pouca atenção.
“Muitas meninas e mulheres estão sofrendo com dor e tendo suas vidas afetadas por isso, mas hoje ainda há uma baixíssima visibilidade desse problema”, afirmou.
O levantamento também aponta que a saúde menstrual ainda é cercada de tabu dentro das escolas. Ana Beatriz contou que o assunto quase não foi tratado em sala de aula e, quando surgiu, acabou virando motivo de piadas entre colegas.
A percepção sobre os impactos da menstruação também varia entre meninos e meninas. Enquanto 41,2% das alunas acreditam que o período menstrual prejudica os estudos e atividades esportivas, apenas 23,7% dos meninos percebem esse impacto.
Os pesquisadores destacaram ainda desigualdades raciais relacionadas ao problema. Meninas negras faltam mais às aulas por questões menstruais do que meninas brancas, mesmo relatando menos episódios de dores intensas.
O estudo também identificou reflexos no ambiente de trabalho. Uma em cada dez professoras afirmou ter faltado ao trabalho no último ano por motivos menstruais. Entre gestoras escolares, o índice chega a 16,2%.



