Mãe de quadrigêmeos dá dicas e arrecada enxoval para grávida de múltiplos em Feira de Santana

A psicóloga baiana Layane Cedraz, que viveu as graças e os desafios de se tornar mãe de quadrigêmeos há quase quatro anos, está transformando toda a sua experiência de cuidar de quatro bebês de uma só vez em solidariedade. Isso porque, por uma ironia do destino, ela conheceu uma mãe da mesma cidade, Feira de Santana (BA), que está prestes a passar pela mesma vivência: receber quatro bebezinhos de uma mesma gestação.

A nova mamãe do pedaço é a operadora de telemarketing Rosilene Santana, que está com cinco meses de gravidez. Ela e Layane têm outras características em comum: Layane, de 34 anos, quando engravidou dos quadrigêmeos, já tinha um filho, assim como está sendo com Rosilene, de 29 anos. Apesar das semelhanças, a forma de engravidar foi diferente. A psicóloga fez fertilização in vitro, já Rosilene teve uma gestação natural.

O primogênito da operadora de telemarketing tem oito anos e, em poucos meses, receberá seus quatro irmãozinhos: dois meninos e duas meninas. A nova amiga Layane tem seis filhos, cinco deles meninos, que foram frutos de tratamentos de fertilização. Apenas a última filha, uma menina de um ano, foi uma gravidez natural.

O encontro das duas mães, como elas dizem, foi “coisa de Deus”. Tudo começou em uma emergência de um hospital. O marido de Layane, Yure Maia, é médico e ele foi o primeiro a conhecer Rosilene. No início da gravidez, a operadora de telemarketing foi até o hospital onde Yure estava de plantão por conta de fortes dores de cabeça que sentiu. Durante o atendimento, ela revelou para Yure que estava grávida de quadrigêmeos. Ao ouvi-la, ele dividiu a história da família com Rosilene, mas não acabou por aí. Enquanto a paciente estava em observação e sendo medicada, Yure ligou para esposa e contou que havia conhecido uma mãe de quadrigêmeos.

“Meu esposo, por providência divina, atendeu ela. Quando ele me ligou para contar eu disse: ‘pegue o telefone dela’. Naquele momento, já surgiu o interesse em dividir com ela o que aprendi durante a gestação. Eu passei muita dificuldade e eu fiquei me projetando nela. Também fiquei preocupada com o contexto em si, de como ela ia fazer para cuidar das crianças”, relatou Layane.

Rosilene com o filho mais velho, de oito anos, e o marido, Regivaldo (Foto: Arquivo Pessoal)

Rosilene com o filho mais velho, de oito anos, e o marido, Regivaldo (Foto: Arquivo Pessoal)

A partir daí, surgiu a amizade. Layane e Yuri se aproximaram de Rosilene e do marido, Regivaldo Silva, de 30 anos. Para a psicóloga, o vínculo foi uma forma de passar as experiências de ser mãe de múltiplos e ajudá-los a montar o enxoval das crianças. Isso porque o casal está sem muitos recursos financeiros para comprar roupas, fraldas e outros objetos para os bebês.

A única renda da casa é de Regivaldo, que é funcionário de uma empresa de transportadora de cargas. Rosilene está afastada do trabalho por recomendações médicas há cerca de cinco meses, desde que ficou grávida. Como espera quadrigêmeos, a operadora de telemarketing precisa repousar, pois os médicos consideram uma gestação delicada. “Meus pés incham quando fico muito tempo com as pernas para baixo ou andando. E quando eles se mexem na minha barriga, fico sem respirar direito”, relatou.

A ideia da campanha para arrecadar objetos para o enxoval foi de Layane. Ela também doou um berço que era dos filhos e que cabem as quatro crianças. “Eles [os pais] vão gastar, no mínimo, 32 fraldas por dia, porque elas [as crianças] precisam ser trocadas a cada três horas. O gasto é muito grande. Comecei a pensar em quem poderia ajudar, liguei para as pessoas que conheço para pedir o que tivessem para dar apoio. Listei todo mundo [do comércio] que eu compro e fui fazendo pedidos, loja de móveis, farmácia, mercado, casa de material de construção”, disse Layane.

Rosilene contou que se sente acolhida pelo casal de novos amigos. Ela recebe apoio da família, que também fez uma campanha para ela com objetivo de arrecadar objetos para os bebês. Contudo, ela destaca que ser ajudada por quem já passou pela experiência de ser pais de quadrigêmeos é uma forma de vivenciar um pouco do que, em breve, fará parte da vida dela.

“Foi coisa de Deus eles nas nossas vidas. A gente sabe que sustentar uma criança já é difícil. Quatro é mais complicado, mas estamos recebendo ajuda psicológica de Layane e do marido, que estão dando para gente noção de como é a gestação de quadrigêmeos. Uma coisa que ela [Layane] me disse, por exemplo, que eu não esqueço nunca, é de colocar as pernas para cima para não inchar os pés”, destacou.

Entre as dicas, Rosilene descobriu situações que vai enfrentar e já aprendeu como reagir a elas. “Ela me mostrou a foto dos filhos dela logo quando nasceram. São muito pequenininhos, pequenos mesmo. Eu me assustei, mas na hora do parto já estarei mais tranquila por saber que eles serão prematuros e que vão nascer pequenos mesmo. Com um tempo vão crescendo e ficando mais fortinhos”, disse.

Apesar de dar os conselhos, o que Layane mais deseja é arrecadar o máximo possível de coisas que possam completar o enxoval dos bebês. “Meu coração é grande, mas a possibilidade de ajuda é pequena. Se eu pudesse ajudar sozinha, faria sem que ninguém soubesse, mas preciso de ajuda. É como se eu tivesse gestando novamente. Gostaria de fazer com ela, tudo o que eu gostaria que fizessem comigo [quando estava grávida dos quadrigêmeos], como contar como é a gestação, as situações que eu iria passar, que eu não dormiria direito, os cuidados que deveria ter com as mamadeiras, os leites especiais, a necessidade da fisioterapia nos bebês e mais um monte de coisa que eu aprendi vivenciando”, revelou Layane.

A psicóloga ainda destaca que a rotina de uma mãe de quadrigêmeos é muito cansativa, e isso é o que mais a preocupa com relação à Rosilene. Segundo ela, quando um bebê dorme, o outro acorda. Além disso, os recém-nascidos serão prematuros, precisarão de fisioterapia e de cuidados para evitar qualquer tipo de contaminação ou doença, já que são muito frágeis quando nascem. “Independente de renda, tem coisas que são comuns a mães de quadrigêmeos. A logística, o leite, a rotina, tendo uma babá ou não, a rotina não muda”, disse.

Sobre o parto, Rosilene contou que o parto será realizado em um hospital de Salvador, porque como os bebês nascerão prematuros, vão precisar de uma UTI neonatal, setor que não tem no hospital conveniado ao plano de saúde de Rosilene, em Feira de Santana.

A preocupação de Rosilene é como ela e o marido vão permanecer na capital baiana, enquanto as crianças estiverem internadas. “O médico disse que uma gravidez como a minha só segura [o parto] até 31 semanas [7 meses]. Quando as crianças nascerem precisarão ficar internadas na UTI neonatal. Eu e meu marido não temos familiares em Salvador, nem dinheiro para nos hospedar. Estamos esperando com fé em Deus que uma solução seja encontrada”, disse.

Imagem da ultrassom de Rosilene, quando ela tinha cerca de um mês de gestação (Foto: Arquivo Pessoal)

Imagem da ultrassom de Rosilene, quando ela tinha cerca de um mês de gestação (Foto: Arquivo Pessoal)

A gestação

A operadora de telemarketing conta que já havia suspendido o remédio anticoncepcional e planejava ter mais um filho. Ela havia ficado grávida em 2015, mas perdeu o bebê. Então, em 2016, planejou tentar engravidar mais uma vez. Ao saber que estava grávida, Rosilene conta que ficou feliz, mas se assustou quando descobriu que eram quadrigêmeos. Primeiro, por ser uma situação inédita, e segundo, por causa dos gastos financeiros.

“Felicidade e medo, principalmente medo [sentiu ao saber da gravidez múltipla]. Quando saí do hospital, estava com minha irmã, fiquei desnorteada, meio tonta. Já tinha visto gravidez de gêmeos. A esposa de meu tio teve duas barrigas de gêmeos, naturais também. Foram só dois, e como eu não tive tanto contato, não sei, de fato, do que ela precisou. A gente estava planejando ter só mais um filho, o orçamento era para um. Daí vem três a mais”, revela.

Rosilene, que já é mãe de Cauã, de oito anos, conta que a notícia da gravidez de quadrigêmeos pegou a família dela de surpresa também. “Para todo mundo foi o susto. Minha mãe ficou preocupada, não apenas por ser quatro bebês, mas também porque a minha gravidez, do primeiro filho, foi de risco e no segundo eu perdi, então minha família ficou preocupada”.

Sobre o filho mais velho, ela conta que na casa não há espaço para ciúmes, que o filho é quem mais espera ansiosamente a chegada dos novos integrantes da família. “Meu filho mais velho está cheio de expectativas. Ele pedia tanto um irmão. Ele fica perto da barriga e conversa com os irmãos. Está super feliz”, contou.

*G1