As constantes altas do leite também elevaram assustadoramente os preços de uma infinidade de itens do supermercado
Tomar um café da manhã reforçado está cada vez mais difícil. Isso porque o leite, item básico dessa refeição, ficou 21,14% mais caro no último ano em Salvador e Região Metropolitana. O levantamento é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e foi reforçado por outra pesquisa do Dieese, divulgada nesta quarta-feira (6). A queda na produção, motivada pela entressafra e o aumento dos custos, é apontada como a responsável por esse resultado.
O leite é um item básico em diversas refeições e matéria prima para uma série de derivados, por isso, reajustes no preço desse produto provoca aumentos em cascata. Segundo o IBGE, o queijo teve alta de 31,64% nos últimos 12 meses, a manteiga subiu 20,20%, e iogurtes e bebidas lácteas ficaram 20,49% mais caros.
O comerciante Marciano Brito, 44 anos, tem dois pontos de venda de queijo coalho e está assustado. “É complicado, porque a gente não tem como abrir mão do material e ao mesmo tempo não pode repassar o reajuste para os clientes. Trabalho com isso há 20 anos, uso material de qualidade, tenho meus clientes e fornecedores, então, não dá para trocar de marca. O que eu tenho feito é repassar aos poucos, aumentando R$ 0,50 ou R$ 1. Além do queijo, tem as despesas com palito, pratinhos, para o cliente não sujar a mão com melaço, guardanapo, embalagens e sacolas”, contou.
Produtores de leite afirmam que o aumento nos preços é comum nessa época do ano, por conta do período de entressafra, mas desta vez o reajuste foi afetado por outros problemas. Uma pesquisa realizada pela Embrapa mostrou que fertilizantes e combustível tiveram papel fundamental nessa equação. A ureia no mercado brasileiro passou de R$ 2,3 mil por tonelada, no início do ano passado, para cerca de R$ 6,3 mil em março de 2022. O cloreto de potássio foi de R$2 mil/t para R$6 mil/t.
O frete marítimo e a inflação também tiveram parcela de culpa nessa alta, e todos esses elementos foram somados ao aumento em 51% nas despesas dos produtores para alimentar os animais e adubar pastagens, entre maio do ano passado e agora. O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), Humberto Miranda, explicou que esse cenário é preocupante em especial para a Bahia.
“A Federação faz um alerta em relação as dificuldades que a cadeia está passando. A maioria dos produtores de leite na Bahia são pequenos produtores que, muitas vezes, não têm condições de arcar com os aumentos nos custos da produção. Estamos levantando quantos deles abandonaram a atividade, mas sabemos que esse número vem crescendo a cada ano, por isso, precisamos de mais políticas públicas de apoio a cadeia produtiva”, disse.
Ainda assim, a entidade afirma que a produção tem aumentado a cada ano. O estado é o maior produtor de leite do Nordeste, são 1,064 bilhão de litros de leite/ano (2020), e tem o 7º maior rebanho de vacas ordenhadas do Brasil (770 mil cabeças), mas a demanda ainda é maior que a quantidade de leite disponível no mercado.
O litro é comercializado por cerca de R$ 2, porém da produção até a prateleira dos supermercados incide sobre o produto despesas com transporte, tratamento, energia, logística e impostos. Em Salvador, a média de preço do litro do leite tem sido de R$ 8,99. Se olharmos mês a mês, o crescimento acontece desde abril, com a maior alta em maio, de 4,35%. A pesquisa do Dieese sobre a cesta básica mostrou acumulado de 20,40% no leite integral, em um ano.
O diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Leite do Estado da Bahia (Sindileite), Rafael Teixeira, explicou que as principais regiões produtoras do país estão no chamado período de entressafra.
“Já é esperado que o preço do leite suba nessa época do ano por uma questão de entressafra nacional. Os estados produtores, como Minas Gerais, Goiás e o Sul do país estão na época de seca, onde há menos alimentos disponíveis para os animais e eles produzem menos, ou seja, a demanda é maior que a oferta. Este ano, isso foi atrelado ao aumento nos custos de produção, como combustível e fertilizantes”, disse.
Como a alta dos preços começou mais cedo esse ano, Rafael acredita que eles comecem a baixar mais cedo. A estimativa dos produtores é que isso aconteça em outubro. A dona de casa Maria Virgínia da Silva, 53 anos, está esperando ansiosa por esse momento. Na casa dela, o leite é bebida obrigatória para os dois netos e o filho e a sensação de reajuste é maior que o apontado nas pesquisas.
“Meus netos gostam da mistura com achocolatado e meu filho toma café todos os dias, com leite. Por enquanto, estamos cortando em outros produtos e estou negociando com as crianças para trocar o leite por suco, mas não posso abandonar totalmente porque é importante para o desenvolvimento deles. A sensação que eu tenho é que o aumento foi de 50%. É triste, mas chegamos em um ponto em que não podemos mais beber algo que é o básico da alimentação”, concluiu.
A Seagri foi procurada para informar sobre políticas públicas para o setor, mas ainda não se manifestou.
Confira a variação dos preços nos últimos 12 meses:
Leite e derivados – 21,14%
Leite longa vida – 22,72%
Leite em pós – 12,13%
Queijo – 31,64%
Iogurte e bebidas lácteas – 20,49%
Manteiga – 20,20%
Veja o acumulado de um ano dos produtos da cesta básica:
Tomate – 73,21%
Café em pó – 73,03%
Banana – 40,67%
Óleo de soja – 37%
Feijão carioquinha – 34,77%
Açúcar cristal – 34,56%
Farinha de mandioca – 31,60%
Pão francês – 30,32%
Manteiga – 22,06%
Leite integral – 20,40%
Carne bovina de primeira – 3,84%
Arroz agulhinha (-10,61%).
Fonte: Correio
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