Estrela de Davi usada por traficantes do Rio reflete crenças evangélicas e gera tensões religiosas

Facções criminosas associam símbolo a crenças.

Policiais do Rio de Janeiro têm encontrado tijolos de cocaína e trouxinhas de maconha com a Estrela de Davi estampada, mas, segundo a BBC News Brasil, o símbolo não se refere à fé judaica. A imagem reflete uma crença evangélica de que o retorno dos judeus a Israel resultará na segunda aparição de Jesus Cristo.

Foto: Daniel Arce-Lopez / BBC

A facção Terceiro Comando Puro (TCP), que domina o Complexo de Israel, utiliza o símbolo como expressão de fé. O grupo é conhecido tanto por desaparecimentos forçados quanto por suas práticas religiosas, e se autodenomina “Tropa de Aarão”, em referência ao irmão de Moisés. Em Parada de Lucas, uma Estrela de Davi em azul neon no alto de uma caixa d’água simboliza a influência religiosa na área, controlada pelo TCP desde 2016.

Além do tráfico de drogas, o grupo impõe restrições a fiéis de religiões de matriz africana, o que tem gerado conflitos e ataques a terreiros. Segundo a antropóloga Ana Paula Miranda, da UFF, essa prática não se limita ao Rio, mas tem se espalhado para outras metrópoles, como Fortaleza e Salvador.

“Esse não é um problema apenas do Rio. Virou um problema das grandes cidades”, afirmou Miranda, coordenadora do Ginga-UFF, que estuda conflitos étnicos e religiosos. Em Fortaleza, por exemplo, traficantes do Comando Vermelho adotam estratégias semelhantes, atacando objetos religiosos e pichando áreas com a expressão “CV abençoado”.