Estados avaliam passaporte sanitário de covid-19 para adolescentes em escolas

Estados avaliam passaporte sanitário de covid-19 para adolescentes em escolas

O desafio de vacinar adolescentes contra a covid-19 tem levado Estados a orientar a imunização dentro de escolas e, em alguns casos, cogita-se até passaporte sanitário para os mais jovens em colégios. O alcance da vacina na faixa etária de 12 a 17 anos não é uniforme pelo País e governos locais relatam ritmo menor de imunização desse público, após fake news e mudanças de diretrizes por parte do governo federal.

Com a volta às aulas para mais alunos em boa parte dos Estados, os governos locais veem nas escolas uma forma de alcançar número maior de adolescentes. Criticados pelo presidente Jair Bolsonaro, seus ministros e apoiadores, decretos que exigem apresentação de passaporte de vacinação em espaços coletivos públicos avançam nos municípios. De forma independente, instituições como o Tribunal de Justiça e o Ministério Público de São Paulo também já exigem imunização.

No Rio Grande do Norte, a Secretaria Estadual da Saúde informa que estuda acionar equipamentos como as escolas, para que seja obrigatório o passaporte da vacina nos colégios. Segundo a pasta, será feita uma reunião com a Secretaria de Educação para pensar em ações para avançar na imunização de adolescentes – a cobertura com primeira dose está em 56% no Rio Grande do Norte.

“Os professores também querem se sentir mais seguros. A ideia é solicitar o passaporte da vacina nos espaços da escola. Todos os servidores do Estado já são obrigados a apresentar (o passaporte), mas queremos estender isso aos alunos. Não adianta os professores estarem imunizados e os alunos transmitindo”, diz Kelly Lima, coordenadora de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Norte.

A discussão sobre o passaporte da vacina nas escolas também deve ser colocada em pauta no Espírito Santo – ainda não há definições. O Estado já realiza a vacinação contra a covid-19 nos colégios e, segundo o governo local, essa é uma forma de chegar onde o adolescente está – já que os mais jovens não vão espontaneamente aos postos de saúde. Para a vacinação nas escolas, as famílias têm de assinar um termo de autorização, permitindo que o filho receba a dose no colégio.

Em Pernambuco, a Secretaria Estadual da Saúde também orientou a “busca ativa” para imunização dos adolescentes – no Estado, a cobertura está em 53%. No fim do mês passado, o governo estadual deu aval para a estratégia de vacinar os mais jovens nos colégios – cada município tem autonomia para definir como fazer a imunização.

“O público de adolescente habitualmente não procura os serviços de saúde e muitas vezes está estudando o dia todo, então precisamos ir onde eles estão”, disse a superintendente de Imunizações do Estado, Ana Catarina de Melo, em coletiva para apresentar a ação.

No Amazonas, a estratégia não inclui vacinar em escolas, mas em algumas cidades é cobrada a apresentação da carteira de vacinação atualizada nos colégios públicos, segundo informou a Secretaria Estadual da Saúde. O Amazonas tem cobertura com a primeira dose de 56% dos adolescentes. A vacinação nessa faixa etária começou em momentos diferentes, conforme a cidade. Em Manaus, a mais populosa do Estado, teve início em 13 de agosto.

No início do mês passado, o Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, anunciou o plano de adicionar a vacina contra a covid-19 à lista de imunizantes exigidos para comparecer presencialmente à escola. A exigência, segundo o governador Gavin Newsom, seria feita depois que a vacina contra a covid-19 fosse totalmente aprovada pela FDA, a agência reguladora americana, para os estudantes de ensino fundamental e médio.

O governador afirmou que a medida segue diretrizes usadas para conter outras doenças. “O Estado já exige que os alunos sejam vacinados contra os vírus que causam o sarampo, a caxumba e a rubéola – não há razão para não fazermos o mesmo com a covid-19. A medida, assim como nossos primeiros requisitos de máscara e vacinação da equipe, é para proteger nossas crianças e funcionários da escola e mantê-los na sala de aula”, afirmou, segundo informe publicado no site do governo da Califórnia.

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), apesar de orientações contraditórias por parte do Ministério da Saúde e de declarações contrárias à vacinação, a campanha contra a covid-19 tem se mostrado satisfatória no Brasil. Nos Estados com baixas coberturas para essa faixa etária, é preciso, segundo ela, mais comunicação. “É preciso gerar mais confiança, informar melhor. Não adianta só chamar para vacinar.” Segundo Isabella, vacinar nas escolas “é a única saída para ter altas coberturas contra qualquer doença”.

Vacina protege adolescente e ajuda a controlar a pandemia

A infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi ressalta que é necessário vacinar adolescentes para protegê-los da covid-19. “Eles também têm o risco de adoecer gravemente, não só na fase aguda da doença, mas também de desenvolver a síndrome inflamatória aguda grave, que é um quadro muito delicado, que acomete mais frequentemente crianças e adolescentes.” Os riscos da covid-19 para os mais jovens são muito maiores do que o risco de algum efeito colateral da vacina.

Ela também destaca os efeitos da covid longa nos mais jovens: até mesmo crianças e adolescentes com sintomas leves da covid podem manifestar, mais tarde, quadros de alteração de comportamento, ansiedade, distúrbios de atenção e déficit de aprendizagem. Além disso, segundo a especialista, há a importância coletiva. “Se não protegidos, os jovens podem ser responsáveis pela manutenção da transmissão”, diz Raquel, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O Estadão solicitou ao Ministério da Saúde dados sobre a cobertura vacinal de adolescentes no País – essas informações não estão disponíveis nas plataformas oficiais de acompanhamento do plano nacional de imunização – e questionou a pasta sobre a de realizar campanhas específicas para esta faixa etária. Não houve resposta.

 

Fonte: Estadão