ARTIGO: São muitos os super heróis da minha vida…

Ao ser alfabetizado, me embrenhei no universo das histórias em quadrinhos.

Vivi heróis urbanos como o Batman, de Gotham City, Demolidor, de Manhattan e Homem Aranha, de Los Angeles. Da África, o Fantasma, o Pantera Negra e o Tarzan, do fundo dos oceanos vinha Namor, o Príncipe Submarino e dos planetas inventados, Thor, de Asgard e Superman, de Kripton.

Esse foi o meu mundo infanto juvenil. Cresci lendo as aventuras desses super heróis que salvavam o mundo de todos os males…

E por tanto tempo acreditei em todos eles e tantas vezes me senti cada um deles. Senti falta, é verdade, de um Super Herói brasileiro, e cresci convivendo com a única referência nos quadrinhos que aludia ao meu país: O Zé carioca, a melhor identidade que Walt Disney construiu do Brasil.

Já crescido, sinto falta do meu mundo pueril e da ludicidade que o inebriava.

Mas é isso mesmo. Não vou lamentar os tempos idos. Foram vividos!

Desse tempo ficaram as lembranças e uma certeza: Super heróis NÃO EXISTEM!

O problema é que, ultimamente, nesses ares tropicais, eles estão vivíssimos.

Apresentam – se como salvadores da pátria. Têm solução para tudo e pregam o ecumenismo político.

Da história, aprendemos que o universo político tão complexo, não é pragmático.

Política é paixão. Um amontoado de sentimentos, de comportamentos e de éticas. Seus resultados, por mais que sejam objetivos e, em regimes de excessão nem sempre são, traduzem uma mística incomparável a qualquer outra ciência humana.

O nosso modelo republicano, assentado em base presidencialista é de uma fragilidade risível.

E isso porque o nosso federalismo, ajustado ao molde norte americano se desajustou.

A nossa República não é PÚBLICA, nunca foi. O nosso presidencialismo é parlamentarista e o federalismo centraliza o poder na União.

Aí soma ? se o histórico da Escravidão, das Ditaduras e do Patrimonialismo do Estado Brasileiro que resulta em um país pouco sério, com um povo pouco afeito a debater a ética da pólis e querendo que Super Heróis apareçam para salvar a todos.

O que precisamos é de Partidos Políticos sérios. Não na teoria, nos conteúdos programáticos, nas teses, porque ai todos são. Mas na essência dos compromissos coletivos.

Nos anos iniciais do Império nasceram os nossos primeiros partidos políticos, o Liberal e o Conservador. Sem nenhuma distinção ideológica e representando apenas facções da elite agrária, ainda assim eram partidos.

A República nasceu, praticamente, à luz de um partido só, o PRP (Partido Republicano Paulista) que aliado aos militares e aos seus homônimos espalhados pelo país, protagonizaram o golpe que baniu o Imperador e sua família.

A República não inaugurou tempo novo e, em sua primeira fase, nos trouxe a alternância de São Paulo e Minas Gerais no comando do país. Era a famigerada Política do Café com Leite. Nos anos 1920 surgiu o PCB (Partido Comunista do Brasil), nos 30 a ANL (Aliança Nacional Libertadora) e a AIB (Ação Integralista Brasileira), fruto da retórica mundial que opunha Comunistas e Fascistas no entre guerras.

Com o colapso do Estado Novo, Vargas cria o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e o PSD (Partido Social Democrático) e os setores mais conservadores agrupam ? se na UDN (União Democrática Nacional).

Após o AI ? 2 (Ato Institucional n 2), já na Ditadura Militar, fomos absorvidos pelo bi partidarismo onde, à partir de então, ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido dos Militares e MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido da oposição, eram as duas únicas agremiações legais do país.

Só com a Nova República que permitiu ? se o pluripartidarismo e com a Constituição de 1988 a legitimação dos mesmos.

O problema é que partidos viraram redutos de prostituição, na acepção pejorativa da palavra e, promíscuos, denotam valor irrelevante ao eleitor.

O valor em questão, no entanto, é que precisamos de Partidos, não de Super Heróis. Sem eles a nossa democracia, ainda incipiente, vai às ruínas.

Não devemos aceitar a ordem como está, é verdade, e o que urge é a necessidade de uma Reforma Política referendada por uma nova Constituínte, para entender se precisamos mesmo de um presidencialismo, de um sistema bicameral, de reeleição, de voto não distrital e obrigatório, de financiamento privado de campanhas, etc.

As nossas experiências de resolver os problemas do Estado Brasileiro com Super Heróis foram mal sucedidas. Lembro ? me de Jânio Quadros, que com sua vassoura iria ? varrer a corrupção do Brasil ? e governou só sete meses, Collor, ? o caçador de Marajás, que permaneceu dois anos, e os populistas que deram alicerce de isopor à nossa democracia.

Acho que para as eleições que se avizinham temos dois projetos claros:

Um liderado pelo PT (Partido dos Trabalhadores) e outro pelo PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). Esses projetos distintos em alguns pontos, alguns nevrálgicos, vem a duas décadas disputando os espaços de poder. O PT ainda tem no Estado seu maior estandarte, e através dele promoveu políticas públicas de inclusão inegáveis, o que permitiu aos desassistidos e invisíveis da República alçar vôos antes impossíveis. O PSDB arvora ? se, e é verdade, em ter estancado o fluxo indomável da inflação e estabilizou uma economia que mais dava ares de ciclones do que céu de brigadeiro.

E essa dicotomia é interessante, pois PT e PSDB são assim, como siameses. Um não tem aprendido a viver sem o outro nem o outro sem o um. Eles têm travado os grandes debates das últimas décadas. Erram por ouvirem pouco as bases e pensam ser onipotentes. E têm razão, os dois, afinal, são Partidos! Os outros são táxis alugados para percursos curtos. Exceto os mais à esquerda, como PSOL, PSTU e PCO, até porque não foram contaminados pelo vírus do poder.

Eu sempre tive lado. Sou de Esquerda e convicto. Também sou Petista, nesse caso menos convicto. E não pela onda, mas por entender que precisamos nos reinventar. Discutir o Partido além dos governos. PSDB não sou e nunca serei. E não é por simpatia, é por ideologia!

Mas tem MARINA agora que, como uma catarse, tem trazido pessoas de todas as idades para as suas fileiras. Parece mesmo um Tsunami. E, se eleita, trará tragédia.

Marina quer governar com os ?bons? de cada partido. Coitada! A sua razão presbiteriana não a convence que todos os partidos são bons. As pessoas é que são más.

Marina não é má. Como Dilma e Aécio também não o são. A diferença é que os dois últimos tem sustentação partidária. Ela não!

E olhe que não trago como argumento o seu fundamentalismo religioso. Trago uma construção histórica para explicar que governantes não são Super Heróis. Não governam com varinhas de condão, nem resolvem problemas estruturais num piscar de olhos.

Enfim, no meu mundo de Super Heróis, tinha também o Super Pateta.

 

Uberdan Cardoso