Ao voltar de viagem recente de Caruaru, município pernambucano que se intitula a Capital do Forró, por conta dos festejos juninos que têm duração de 30 dias, cheguei à conclusão de que o nosso São João da Bahia precisa encontrar um equilíbrio entre reunir grandes nomes da música no palco e, ao mesmo tempo, resgatar as tradições joaninas.
Nada contra o show business, até porque graças a ele são gerados
milhares de empregos temporários e fortunas são movimentadas. Para se ter uma ideia, cidades como Senhor do Bonfim, Amargosa e Cruz das Almas têm uma receita de R$ 15 milhões (cada), somente no período junino, segundo dados da Secretaria Estadual do Turismo.
Mas o que está em questão é a tradição; o celebrar o São João, São Pedro e Santo Antônio. Mas muito além da reverência aos santos católicos, os pernambucanos também sabem celebrar monstros sagrados como Luiz Gonzaga e Mestre Vitalino. Um foi rei na música e o outro no artesanato.
E o segredo do sucesso talvez esteja aí: na junção cultura e negócio. Enquanto nossas cidades batem à porta do Governo do Estado e estatais federais em busca de apoio, os pernambucanos celebram 12 patrocinadores em Caruaru, sendo nove deles grandes multinacionais que vão de marcas de bebidas e chicletes a bancos e administradoras de cartão de crédito. A sutil diferença é que lá as marcas precisam se adequar à cultura, enquanto nós vivemos o inverso.
E por que isso acontece? Porque nas praças e polos de entretenimento há programas para velhos, adultos, jovens e crianças, o que torna o São João um produto turístico natural, procurado por milhares de pessoas de todas as idades.
Ah, e não há espaço para o novo? Claro que há, mas lá o novo vive lado a lado com o tradicional, que está presente nas comidas típicas, como uma buchada de bode, tapioca ou milho assado, como também no chapéu de couro.
Este ano, uma luz no fim do túnel ocorreu por conta da crise que afeta centenas de municípios baianos, que se viram obrigados a apostar no forró autêntico, bem mais barato, e nas antigas tradições, igualmente menos custosas. A falta de recursos acabou freando o desatino das prefeituras que buscavam concorrer com as festas privadas em vez de unirem-se a elas deixando cada qual com o seu cada qual.
é jornalista e professor de Texto, Discurso e Mídia da Faculdade Dois de Julho. (Correio)


