Filho de diarista e gesseiro, baiano de Itinga vai estudar engenharia na França

Filho de diarista e gesseiro, baiano de Itinga vai estudar engenharia na França

Aos 23 anos, o filho da diarista Isabel Cristina e do gesseiro Jailson se vê de forma similar à alegoria da caverna do filósofo Platão. Jadson Silva, cria de Itinga, na região metropolitana de Salvador, nota que nós acabamos limitando os nossos sonhos de acordo com o ambiente em que vivemos e com as pessoas que convivemos.

Como no mito de Platão, só enxergava as sombras projetadas nas paredes das cavernas e nunca as pessoas que produziam essas sombras. Foi o Instituto Federal da Bahia (Ifba) o responsável por abrir as portas. Jadson, aprovado em um intercâmbio acadêmico na França, se vê com o objetivo de também levar outras pessoas para fora.

Bolsista integral no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) pelo curso de Engenharia Mecânica, fará, esse ano, um semestre na escola de Engenharia da Pôle Universitaire Léonard de Vinci, em Paris. Com os custos de matrícula, taxas e anuidade na escola francesa já cobertos pela bolsa, ele montou uma vaquinha on-line para arcar com passagens aéreas, visto, seguro saúde obrigatório, aluguel, alimentação e transporte. A meta de quase R$ 40 mil foi batida em questão de dias.

“Para mim, essas oportunidades significam quebrar um ciclo de pobreza, já que fui a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior e o IFBA foi meu ponto de virada nessa trajetória”, relata.

Seu objetivo é inspirar muitos com sua história, iniciada em uma oficina mecânica automotiva. É onde trabalhava como ajudante aos 12 anos. Já era um aluno dedicado, incentivado pelos pais, que o ensinaram a ler e a escrever antes de completar os 4 anos. Por isso, quando soube da existência do Instituto Federal, através da apresentação de estudantes em sua escola, logo se interessou.

Enfrentando uma concorrência de 10 candidatos por vaga, adentrou pela política de cotas, aos 14 anos. “As oportunidades oferecidas lá abriram meus olhos e pude sonhar mais alto. Auxiliava muito o fato de que a escola conta com políticas de assistência estudantil, auxílio transporte, bolsa, pois meus pais não tinham condições alguma de me bancar”, revela.

No Instituto, participou como voluntário em uma iniciativa de tecnologia social chamada Projeto Licuri, que favorecia comunidades no semiárido baiano com suporte técnico voltado para a extração e beneficiamento do licuri, amêndoa do sertão. “Eu era um dos responsáveis pela manutenção e melhoria do maquinário de uma cooperativa”. A partir daí as portas se abriam sozinhas.

Foi selecionado pela escola para uma visita técnica à linha de produção de quatro grandes montadoras de automóveis: Mercedes, BMW, Porsche e Volkswagen, na Alemanha. Foi a primeira viagem de avião e, logo essa, para sair do país.

“Depois, fui selecionado para participar do programa Jovens Embaixadores 2016, uma iniciativa da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Através desse programa, passei um mês nos Estados Unidos aprendendo sobre liderança, impacto social e voluntariado. Todas essas oportunidades foram me influenciando e, hoje, quero ser professor universitário de grandes escolas de engenharia do mundo”, projeta.

Apesar de não falar francês, Jadson não tem receio de “se virar” sozinho do outro lado do Atlântico. Usa aplicativos para aprender idiomas e escolheu a França por vê-la como um país “ponte” a ser desbravado.

Exibe, inclusive em seu site, compromissos, por fazer questão que sejam públicos. Dentre eles, doar, em até quatro anos, um montante equivalente ao arrecadado na vaquinha para apoiar outros intercambistas de origem humilde. Além disso, todo valor não utilizado no intercâmbio será integralmente doado ao Programa de Bolsas do Insper, com enfoque especial em bolsas étnico-raciais.

“Uma oportunidade puxa a outra. É importante ter essa visão de multiplicador. Um só sobe porque outras pessoas deram o suporte e, quem está em cima, puxa os outros, é o que sempre tentei fazer. Informação faz toda diferença”, dá o recado.

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