Era para ser uma mesa tradicional, com convidado, mediação, e todo script que vem sendo adotado desde a primeira mesa da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica). Era. Mas, neste sábado (7), Jout Jout e Tia Má imprimiram personalidade e desconstruíram o padrão em uma mesa divertida, porém baseada em assuntos complexos e profundos como relacionamento abusivo, preconceito e solidão da mulher negra.
Youtubers e jornalistas, Julia Tolezano, a Jout Jout, e Maíra Azevedo, a Tia Má, arrancaram gargalhadas do público que enfrentou uma enorme fila desde o início da tarde deste sábado. Os “privilegiados” que conseguiram entrar no Claustro do Convento do Carmo para assistir a uma das mesas mais esperadas e procuradas da Flica, interagiram a todo momento com as duas convidadas por meio de olhares, perguntas e muita admiração. Emocionada, Jout Jout contou como foi chegar até Cachoeira, no recôncavo baiano, e perceber toda euforia da plateia.
“Eu não sei nem o que dizer. Maravilhoso estar aqui por motivos muito legais. É muito louco isso, né? Eu faço vídeos em casa, sozinha ou com o Caio. Edito e coloco. Pessoas assistem e comentam. Eu vejo números. Eu não vejo as pessoas. Eu não vejo essas carinhas todo dia. É muito bom ver isso na rua. É colocar carinhas nesses números. Acho que conecta mais ainda. Muito obrigada por terem vindo. Sabe aquela coisa de festa? Eu fico pensando ‘e se ninguém for?’. Eu sofro. Sou pisciana”, disse Jout Jout.
O diálogo as duas personalidades perpassou por diversas questões tensas que são discutidas por meio dos vídeos do youtube que ambas desenvolvem nos respectivos canais. Uma delas foi o lugar de fala. De forma leve, Tia Má perguntou se, em algum momento, a Jout Jout já tinha desistido de falar sobre algum assunto porque não se sentiu no direito. De bate pronto, a resposta: “Diariamente. Tem muitas coisas que, primeiro, eu não me sinto à vontade para falar por não ter vivido. Não é roubar lugar de fala, é não saber o que falar. Às vezes, eu suspeito como deve ser, mas não sei”, explica.
Entre tantos momentos reflexivos, questionamentos sobre cotas raciais, amor, essência, signo e até Harry Potter, Jout Jout e Tia Má foram dialogando com o público de forma positiva e inspiradora. Meninas e meninos, mulheres e homens, todos na expectativa de absorver o que ambas tinham a oferecer: experiências, visões de mundo, angústias e surtos criativos.
Por muitas vezes, Tia Má “soltou o verbo” ou, na melhor forma baiana de dizer, “largou o doce”. “Eu ainda sou vista como a preta da anca larga que serve como reprodutora. Eu não sirvo para ser amada. Não confunda liberdade de expressão com liberdade de opressão. A maioria das famílias do país são chefiadas por mulheres negras, que estão sozinhas. A solução para acabar com a solidão da mulher negra é encontrar formas de acabar com o racismo e o machismo. Precisamos desconstruir estereótipos. E não sei se é o relacionamento afro-centrado”, disse a partir de uma pergunta da plateia.
Para Jout Jout, há um longo caminho a ser percorrido em diversas esferas da sociedade, mas o otimismo deve dar o tom das ações e pensamentos. “Às vezes você fica pessimista. Mas, assim, que progressos incríveis que já tivemos até agora? Você vê na rua, no caminhar, no dia-a-dia, como as pessoas estão diferentes. É um processo, ele é lento, mas vai acontecendo. Deem esse exemplo”, disse Jout Jout a respeito da aceitação do próprio corpo, do respeito ao ser quem é e as formas de lidar com as angústias existenciais.
Sobre a Flica, ela foi enfática. “Enorme prazer e pompa. Me senti muito honrada. Eu não conhecia Cachoeira. Cachoeira é mágica. Ninguém nunca tinha me falado. Quando eu digo ‘eu vou para uma Festa Literária Internacional de Cachoeira é cool’. Isso mistura o Brasil. Esse tipo de evento dá uma espalhada gostosa. Gosto de espalhar”, disse.
Seguindo o bate-papo que se confundia com um divã ou esquete teatral, Tia Má e Jout Jout revelaram posturas que adotam quando se tem uma situação de preconceito. “Ou ignoro ou uso a técnica do constrangimento”, disse Tia Má.
“Se fazer de louca e não entender nada. Como em um vídeo que fiz uma vez”, contou Jout Jout. Por fim, toda a complexidade da mesa que reuniu duas figuras cativantes, como Julia Tolezano e Maíra Azevedo, vai ficar na memória de quem participou, sorriu e sentiu a essência dessas duas “retadas”, como no bom baianês.
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