Mesmo após o governo federal anunciar a alíquota zero para alimentos básicos, os consumidores do Recôncavo Baiano continuam pagando caro pelo café. Nos mercados da região, o preço do produto varia entre R$ 17,50 e R$ 20. Segundo economistas ouvidos pelo Estadão, as medidas anunciadas são inócuas e terão pouca relevância para conter a inflação dos alimentos no curto prazo.

José Carlos Hausknecht, economista da MB Agro, afirma que as ações não terão efeito expressivo nos próximos meses. “Algumas não vão ter impacto nem no longo prazo”, ressaltou. Como exemplo, ele cita a zeragem da alíquota de importação da carne, do café e do açúcar, destacando que o Brasil é o maior produtor mundial desses itens, o que torna a importação em grandes volumes pouco viável, mesmo sem a cobrança de imposto.
A lista de produtos que tiveram o imposto de importação zerado inclui: carne, café, açúcar, milho, óleo de girassol, azeite, sardinha, biscoito, massas alimentícias e óleo de palma.
No caso do óleo de girassol, Hausknecht avalia que, além de ser um produto caro, é pouco consumido no Brasil. “Só a zeragem da alíquota de importação sobre as massas alimentícias teria algum efeito”, disse. Em relação ao óleo de palma, mesmo com a liberação de uma cota de 150 mil toneladas, ele afirma que os preços internacionais seguem altos, limitando qualquer alívio ao consumidor.
“As medidas são pouco relevantes”, reforçou o economista Silvio Campos Neto, da consultoria Tendências. Ele aponta que o problema da inflação dos alimentos é estrutural, relacionado ao aumento da área plantada e da produção agrícola, além de fatores climáticos e de ciclos de safra, como no caso da carne.
Na Bahia, produtores de café também não acreditam em redução de preços e alertam para o agravamento das mudanças climáticas. De acordo com o IBGE, a produção baiana de café deve atingir 266 mil toneladas em 2025, um aumento de 6,8% em relação a 2024. Contudo, mesmo com a maior oferta, a expectativa é que o preço permaneça elevado.
Para Rodolfo Moreno, engenheiro agrônomo e sócio-fundador da Coopiatã, na Chapada Diamantina, o fato de o café ser uma commodity negociada em bolsa impede que o preço diminua facilmente. “Os boatos correm, não é? Então, quem tem café vai faturar em cima”, disse em entrevista ao Bahia Notícias.
Ele explicou que, no ano passado, a região colheu cerca de 750 mil sacas de café, mas a safra deste ano deve ser menor devido à bienalidade do grão — alternância entre colheitas fartas e escassas. A crise climática também preocupa. “Esse preço totalmente atípico é pela questão climática mundial”, acrescentou.
Segundo Rodolfo, o café de boa qualidade já é vendido a R$ 3,2 mil a saca, enquanto o café de qualidade superior alcança até R$ 3,5 mil. Para ele, a ação do governo federal em zerar o imposto de importação para o café não trará resultados efetivos para o consumidor.



