Santantoniense que passou por cirurgia inédita no Brasil fala sobre como é viver com coração fora do corpo

Morador de Santo Antônio de Jesus sobreviveu 51 dias com coração artificial fora do corpo antes de receber órgão doado por jovem vítima de acidente.

Há 17 anos, o jovem santantoniense Misael Santos de Almeida viveu uma experiência médica inédita no Brasil: ele sobreviveu por 51 dias com um coração artificial ligado fora do corpo, até receber um transplante cardíaco. O procedimento foi realizado em 2008, no Hospital de Messejana, em Fortaleza, no Ceará, após a doação do órgão por um jovem de 28 anos que sofreu um acidente de moto.

Misael é hoje considerado o primeiro brasileiro a sobreviver com esse tipo de equipamento externo, em um feito médico que impressionou especialistas de vários estados e até do exterior. O dispositivo artificial, que mantinha seu coração funcionando enquanto aguardava o transplante, era experimental na época e havia falhado em outros estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. “Eu fui o único que deu certo. Sou prova viva”, afirmou Misael, emocionado.

Durante o período pré-transplante, ele chegou a pesar apenas 20 quilos. A foto com a máquina presa ao peito ainda hoje emociona. “Os médicos disseram que, sem ela, eu não sobreviveria nem dois dias”, relembra. O sucesso do procedimento foi tão significativo que Misael foi convidado a participar de um congresso médico em Fortaleza, onde cirurgiões, inclusive dos Estados Unidos, quiseram conhecê-lo pessoalmente. “Fizeram uma surpresa para mim. Foi muito gratificante.”

A cirurgia se tornou necessária após Misael desenvolver complicações graves causadas pela Doença de Chagas. Inicialmente, ele chegou a usar um marcapasso, mas a doença avançou rapidamente e o dispositivo já não era suficiente. “No meu caso, o coração artificial foi a única solução até chegar ao transplante definitivo”, explica.

Hoje, Misael vive com o coração saudável do jovem doador e realiza acompanhamento médico a cada três meses no Hospital Ana Nery, em Salvador. “Tenho uma vida normal. Faço caminhadas, me alimento bem, embora às vezes saia um pouco da dieta”, brinca.

A história de Misael também é um testemunho de gratidão ao Sistema Único de Saúde (SUS), que viabilizou o procedimento. “Se não fosse o SUS, eu não estaria aqui. A máquina que usei custava quase R$ 100 mil e minha família não teria condições de pagar”, disse ele, ao agradecer ainda ao cirurgião responsável, Dr. Juan, e sua equipe.

O caso também destaca a importância da doação de órgãos. “Agradeço primeiramente a Deus e depois à família do doador, porque se não fosse por eles, eu não estaria aqui contando essa história”, afirmou, com a voz embargada. “Hoje esse coração bate do lado esquerdo do meu peito. Para mim, ele não morreu.”

Misael caminha pelas ruas de Santo Antônio de Jesus com uma camiseta que estampa com orgulho: “Sou transplantado”. Mais do que uma frase, é o símbolo de uma vitória sobre a morte e da força da medicina aliada à solidariedade.