Caso Madalena: família usava pensão de R$ 8 mil de mulher escravizada em MG para pagar faculdade de medicina da filha

A pensão recebida por Madalena Gordiano, mantida em condição análoga à escravidão por 38 anos em Minas Gerais, financiou o curso de medicina de Vanessa Maria Milagres Rigueira, filha de Dalton César Milagres Rigueira, seu ‘patrão’. As informações foram dadas por auditores fiscais do caso ao Uol neste domingo (3).

Madalena tem uma renda de R$ 8,4 mil oriunda de um casamento com um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, um tio da esposa de Dalton, e nunca chegou a morar com ele ou ver a cor do dinheiro. O marido morreu em 2003 e o matrimônio foi alvo de denúncia em 2008, mas o processo foi encerrado em 2015 por falta de provas, apesar de ‘fortes indícios de ocultação do fato’.

As investigações apontam que, já ciente da saúde debilitada do tio de Valdirene Lopes da Costa, dona da casa onde Madalena morava, por conta da idade, a família teria arranjado o casamento. Maria das Graças, quem primeiro levou Madalena a casa dizendo que a adotaria como filha, teria organizado o casamento para que o dinheiro da pensão pudesse pagar a faculdade de Vanessa formada em 2007 pela Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro.

A pensão da empregada teria sido utilizada para manter os gastos da família durante 17 anos.  Quando Vanessa estava praticamente formada, Dalton passou a administrar o dinheiro de Madalena e se mudou ao receber uma proposta para dar aula em uma universidade de Patos de Minas (MG) em dezembro de 2006. No depoimento dado ao MPT (Ministério Público do Trabalho) obtido pelo UOL, Dalton declarou ter uma renda de R$ 10 mil como professor universitário e mais R$ 1,3 mil do aluguel de dois imóveis. Ele ainda fez dois empréstimos consignados no nome de Madalena, com dívida restante de R$ 18,5 mil no Banco do Brasil, segundo apurou o Uol.

De acordo com o MPT, a renda da família, sem a pensão de Madalena, é incompatível para quem tem um imóvel de quatro quartos financiado na área mais nobre de Patos, com parcelas de R$ 1,7 mil, e paga faculdade para duas filhas, uma delas estudante de medicina em Uberaba, com mensalidade de R$ 6,8 mil. Dalton se defendeu das acusações e disse que a filha Vanessa, hoje formada, ajuda a pagar a mensalidade da irmã Raíssa, que, segundo colegas de sala, era frequentemente vista nos melhores restaurantes da cidade e gostava de mostrar o padrão de vida nas redes sociais.

Advogado da família Milagres Rigueira, Brian Epstein disse em nota que ainda não teve acesso aos autos do processo. O defensor também disse que os familiares “estão abalados pelo acontecimento e preferem se manter em silêncio”.

Mesmo com uma renda superior a R$ 11 mil, a família de Dalton recorreu ao auxílio emergencial e teve três pedidos aceitos pelo governo federal. Valdirene e as filhas Bianca e Raíssa receberam cinco parcelas de R$ 600 e uma de R$ 300, totalizando R$ 3,3 mil para cada uma.