
Noite de 20 de março de 2001, Lucas Terra, de 14 anos, havia acabado de sair de um culto na Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro Rio Vermelho, em Salvador, acompanhado pelo pastor auxiliar Silvio Roberto dos Santos Galiza. Depois disso, o adolescente nunca mais foi visto. Passados 24 anos, em 2025, a família ainda aguarda por justiça, conforme informou o Carta Capital em uma reportagem nesta semana.
No dia seguinte do desaparecimento, o pai de Lucas Terra caminhava pelas ruas de Salvador com cartazes nas mãos. Percorreu pontos de ônibus, hospitais e igrejas. Colou folhas em postes e abordou desconhecidos. Ele voltou ao templo da Igreja Universal do Reino de Deus no Rio Vermelho, onde o menino de 14 anos foi visto pela última vez ao lado do pastor assistente Silvio Galiza. Saiu de lá sem respostas.
Enquanto a mãe começava a trabalhar na Itália, Lucas permanecia na capital soteropolitana com o pai. Desde pequeno, circulava no grupo religioso, onde era visto como um adolescente dedicado e promissor, próximo de se tornar obreiro. De um orelhão próximo ao templo do Rio Vermelho, Lucas avisou ao pai que participaria de uma atividade ali. Foi o último contato.
Dois dias depois, um corpo carbonizado foi encontrado em uma caixa de madeira na região central de Salvador. A confirmação de que se tratava de Lucas só veio após semanas, quando o DNA finalmente foi realizado. Para a família, a demora foi o primeiro elo de uma cadeia de negligências que marcou todo o percurso judicial. O inquérito apontou que Galiza havia atraído Lucas e participado diretamente do crime.
A ação contra o Estado da Bahia recém-protocolada descreve falhas como demora para ouvir testemunhas, ausência de diligências básicas e falta de informação às vítimas. Outro ponto é a repetida substituição de delegados, promotores e juízes, o que provocava uma regressão no processo. Para a família, essa sucessão de trocas fragmentou a memória do crime e contribuiu para decisões conflitantes ao longo do tempo.
“Meu filho foi queimado vivo”. Era com cartazes como esse que Carlos Terra, pai de Lucas Terra, protestava pela cidade de Salvador. O adolescente de 14 anos foi queimado vivo em março de 2001 e três pastores foram acusados pelo crime. Durante os 22 anos em que o caso tramitou na Justiça baiana, apenas o pastor Silvio Galiza foi preso, sendo condenado a 18 anos de prisão.
Os três agravantes para o homicídio são: o motivo torpe, o emprego do meio cruel e a impossibilidade de defesa da vítima. A defesa dos pastores disse, em nota, estar convicta da inocência deles, e que não há provas ou indícios contra os pastores Joel Miranda e Fernando Aparecido.
A acusação ainda aponta que Lucas teria sido vítima de estupro. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) não informou se os réus também irão a júri pelo abuso sexual.
Durante os anos de espera pelo júri popular, o pai do menino lutou incondicionalmente pela condenação dos envolvidos. Ele acampou em frente ao fórum em Salvador, publicou um livro sobre o homicídio e viajou pressionando autoridades nacionais e internacionais.
Carlos Terra não verá o resultado do julgamento dos dois pastores: ele morreu em 2019, após sofrer uma parada respiratória decorrente de cirrose hepática. O corpo dele foi enterrado ao lado do corpo do filho.
A obra “Lucas Terra – Traído pela Obediência” foi publicada de forma independente e detalha o assassinato da vítima em mais de 100 capítulos. Na obra, Carlos Terra resgata memórias do filho, que cresceu em uma família cristã e sempre foi muito dedicado à igreja.
“Este livro relata a história verdadeira de um pai que percorreu em quilômetros o equivalente à três voltas no planeta terra em busca de justiça por seu filho adolescente de 14 anos, que foi Traído Pela Obediência, amarrado, amordaçado, espancado, violentado e queimado vivo por pedófilos assassinos no Brasil”, escreveu no epílogo (parte final) do livro.
Carlos relata que a morte do filho aconteceu pouco tempo depois que a família se mudou do Rio de Janeiro para Salvador, onde deveria ficar por apenas três meses. Depois desse período, pai e filho viajariam para a Itália, onde a mãe do menino estava morando na época.
A viagem à Itália não aconteceu, porque semanas antes Lucas foi estuprado e queimado vivo pelos pastores Joel Miranda, Fernando Aparecido da Silva, réus pelo crime, e Silvio Galiza, que já foi julgado e condenado. Momentos antes do assassinato, o pai relatou que Lucas o telefonou e avisou que estava na igreja com o pastor Silvio.
“Eu pensava que o lugar mais seguro que o meu filho poderia estar era no templo”, retratou Carlos Terra em um dos capítulos do livro.



