Os canudos nos oceanos escondem o verdadeiro problema? -Por Ana Júlia Matos

Imagem: Divulgação

Durante os últimos anos temos falado bastante sobre os canudos, plásticos e resíduos que param nos oceanos e causam sua devastação. E, realmente, o hábito de jogarmos nosso lixo nos mares causa a morte de diversos animais marinhos, o tempo imenso que leva para que material plástico se decomponha além de “sufocar” os animais, geram zonas mortas e é realmente uma prioridade que o lixo pare de chegar nos oceanos com urgência.

Entretanto, essa discussão com muita atenção dirigida a canudos e copos talvez tenha criado uma cortina de fumaça para um problema muito maior:  a pesca industrial. Após muita pesquisa, muitos documentários e reflexões depois, resolvi escrever sobre  alguns motivos pelo qual diminuir o consumo de peixe, comprar de pequenos comércios e se discutir formas mais sustentáveis e humanizadas de criar esses animais, é a nossa alternativa mais sustentável.

O aumento da população tem trazido inúmeros problemas, mas gostaria de focar em relação a alimentação. Estima-se que nossa população cresça mais 2 bilhões até o próximo século, chegando a 9,8 bilhões de pessoas, essa demanda por alimentos e principalmente por carne, alimentam indústrias e alimentam mercados que geram trilhões de dólares mas que, em compensação trazem danos inimagináveis ao planeta. É certo que reduzir nosso consumo de carne e de produtos de origem animal é uma das (e talvez melhor) forma de reduzir os danos ambientais e os efeitos do aquecimento global, mas, porque falamos tão pouco sobre a pesca industrial?

A pesca de arraste apesar de proibida em diversos países, continuam acontecendo já que a fiscalização nos navios é difícil, existe uma rede que dificulta ainda mais essa fiscalização, seja porque os governos escondem e subsidiam essa pesca predatória, as ONGs que se sentem acuadas em falar sobre com medo de perder seus membros e um forte esquema de crime organizado por trás até mesmo da pesca de tubarões por causa de suas barbatanas.

A pesca de arrasto é basicamente uma rede que captura tudo por onde passa, até espécies que não deveriam ser pescadas como golfinhos, baleias, tubarões, tartarugas marinhas e muitos outros, esses animais dificilmente sobrevivem a falta de oxigênio e ao trauma e acabam sendo jogados de volta ao mar para morrerem.

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A sobre pesca coloca milhares de espécies em extinção, não só pela pesca acidental, mas a demanda crescente e o mercado não respeitam o tempo de renovação dos animais.

Estimam-se que a população total no mundo de golfinhos, tubarões e o atum-azul ou rabilho tão apreciado no preparo de pratos como sushi, estejam em torno de 5% a 10%, beirando a total extinção. A pesca do atum-azul movimenta 42 bilhões de dólares por ano.

A piscicultura deveria ser uma alternativa sustentável e saudável para que os humanos possam consumir peixes, mas não é por aí. Me questionei de inicio sobre como esses peixes são alimentados, a ração para peixes é extremamente processada e feita de óleo de peixe e farinha seca de peixe. Para 1kg de salmão é preciso 1,2kg de ração que é feita de peixes menores, a piscicultura é um pesca predatória disfarçada de “economia sustentável”.

Os criadouros também não garantem a saúde e qualidade da carne, como acontece com a criação de salmão escocesa onde é vendida na verdade carne cinza pintada de peixe, pois sem os compostos químicos a carne é cinza. E também nos expomos cada vez a bioacumulação de mercúrio e doenças que não conhecemos.

35% dos manguezais foram destruídos para a construção desses criadouros , causando juntamente com o que foi citado anteriormente mais desertificação do solo marinho causada pela pesca predatória, que é responsável também  por mais de 50% do plástico no oceano e a maior responsável pelos danos a vida marinha.

Os oceanos são depósitos de carbono, gramas marinhas, algas e outras plantas marinhas absorvem 20 vezes mais carbono do que florestas tropicais e produzem quase 85% do oxigênio do planeta.

Com esse artigo eu não quero fazer você, leitor a nunca mais comer camarão ou algo assim, mas sim te levar a reflexão sobre a qualidade dos alimentos que chegam no seu prato e sobre a nossa relação com a vida marinha. Pequenos hábitos como diminuir o consumo de plásticos e produtos de origem animal, e comprar mais produtos de pequenos produtores e feiras podem reverter um quadro que se agrava a cada minuto. Precisamos olhar com mais afeto para as outras formas de vida que nos cercam, muito se fala sobre canudos e isso é um problema, mas existe essa ameaça que é muito maior e precisamos falar mais sobre ela.

Canudos e copos de plástico representam 13% do lixo na mancha de lixo plástico no grande pacífico, enquanto redes de pesca e materiais da pesca 54%  de todo o material.

A melhor forma de salvar a vida marinha é parar de consumi-la em escala industrial e focarmos que a natureza não se repõe nessa quantidade.

Estamos há anos em guerra com os oceanos, mas se ganharmos essa guerra perderemos tudo, não existe humanidade com um mar morto, convido você leitor, a pesquisar mais sobre o assunto e tentar mudar alguns hábitos, uma pessoa não pode fazer tudo mas todos podemos fazer algo por todos.