A Fonte das Cabeças, patrimônio histórico e ambiental do município de Governador Mangabeira (a 132 km de Salvador), no Recôncavo baiano, está sendo revitalizada. Ela será reintegrada ao patrimônio da cidade com uma nova estrutura, preservando a memória da época em que o município ainda era chamado de Vila das Cabeças, por volta de 1917, e ela era a única fonte de abastecimento para os 819 habitantes do lugar.
A água da fonte servia tanto para uso doméstico como para as lavadeiras, de ganho.Atualmente desativada, a fonte voltará a ter importância como espaço de lazer e com a sua nascente preservada. Os moradores mais antigos contam que a fonte era um minadouro que jorrava água cristalina e pura.Muitas famílias ricas da época pagavam aos carregadores que transportavam a água no lombo do boi.
Era na Fonte das Cabeças que as lavadeiras, que também trabalhavam nos armazéns de fumo, sustentavam as suas famílias, lavando as roupas das famílias mais abastadas da vila. Recentemente a fonte ganhou um novo nome em homenagem à mais antiga e conhecida lavadeira do município: Lourência Conceição, chamada pela população de dona Cabocla, já falecida.
Memória Pela manhã, dona Cabocla lavava roupa na fonte e à tarde trabalhava como enroladeira nos armazéns de fumo. Minha mãe faleceu aos 94 anos. Lavou roupa das famílias tradicionais e até dos tropeiros que passavam pela vila. É uma justa homenagem que fazem a ela, uma pessoa que pedia para não abandonarem a fonte, conta Maria de Lourdes Conceição, 74 anos, filha de dona Cabocla.
Aurelina dos Santos Conceição, conhecida como dona Preta, 70 anos, lembra com saudade dos tempos em que era lavadeira. Para incrementar a renda da família, após enrolar folhas de fumo nos armazéns, ela seguia para a Fonte das Cabeças. Criei meus filhos lavando roupa. Muita gente também tomava banho e pegava água da fonte no lombo do boi para levar para casa. A água era limpa e boa. Naquele tempo não tinha água encanada como hoje, destaca. Em 1962, a Vila das Cabeças passou a se chamar Governador Mangabeira.
Hoje existem algumas fontes na zona rural, mas nenhuma com a mesma importância da que fica na sede do município. A primeira rede de abastecimento de água encanada chegou em 1964. Mesmo assim, muitas pessoas ainda se serviam da água da fonte, explicou Adauto João Mamona dosSantos, 73 anos,ex-prefeito do município. Em 1977, João Mamona instalou chafariz e banheiros no local porque até essa época boa parte da população tinha o costume de tomar banho na Fonte das Cabeças.
Aos 106 anos, Sebastião Pereira dos Santos conta que a Fonte das Cabeças também foi usada como ponto de encontro dos namorados. Ele passou a frequentar a fonte para cortejar a jovem lavadeira Rosália dos Santos, que mais tarde passou a ser sua esposa. Eu ia muito lá para observar uma moça que lavava roupa. E casei com ela, completa.
O professor de história, Luís Carlos Borges, diz que há várias versões para o nome da vila e da fonte. Mas não se sabe a verdadeira origem. Há registros de que ocorreu um crime,onde três tropeiros foram mortos e suas cabeças fincadas em estacas. Daí o nome Vila das Cabeças e Fonte das Cabeças. Hoje a importância da fonte é histórica, mas no passado era o único ponto de abastecimento e por isso está muito ligada à vida da população local, salientou o professor.
População coleciona diversas histórias sobre o local
Com o passar do tempo,o processo de degradação da Fonte das Cabeças acelerou, diminuindo a queda dágua. A expansão imobiliária também fez surgir um novo bairro no seu entorno, o Vale do Ebrom.
A atual prefeita do município, Domingas da Paixão, conta que quando trabalhou como empregada doméstica também lavou roupa na fonte. Carreguei latas de água na cabeça e também lavei por muito tempo a roupa de uma família.Foi, inclusive,um dos seus membros que concorreu comigo na última eleição. Tenho a obrigação de preservar esse patrimônio, afirmou.
O professor Moacir Aragão, 43 anos , lembra com saudades da época em que a mãe dele, dona Florzinha, criou os sete filhos lavando roupa na fonte. Isso fez com que ele construísse uma réplica da Fonte das Cabeças no jardim de sua casa.
Carinho Quandonasci a fonte já existia, mas sei que minha mãe criou os filhos lavando roupa. Ela saía dos armazéns de fumo e ia para a fonte lavar de ganho. Hoje moro em frente à fonte e tenho um carinho enorme por esse patrimônio, relatou.
A reforma será feita com recursos da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano (Sedur), que disponibilizou mais de R$ 456 mil. A prefeitura vai investir R$ 51 mil. Estão sendo feitos serviços de reforma e ampliação da lavanderia, além da construção de uma ampla área de lazer no entorno da fonte, com pistas de cooper, concha acústica, quiosques e uma praça para as crianças.




