Dizem que o Carnaval é a oportunidade de sermos felizes com ?data marcada?. E eu, vejo nos rostos das pessoas esse contentamento. Essa alegoria perene chamada sorriso que, imune às mazelas do cotidiano, parece se eternizar nesses dias do nosso calendário.
O feriado, o trio, o abadá, a praia, o beijo, transcendem o cansaço, o risco, o ferry…
Carnaval é isso. É catarse. Cheiros, prazeres, calores, sabores e ritmos.
Mas eu não gosto do Carnaval!
Tipo assim, como no fim do ano. Sou mais o Réveillon do que o Natal. Sou mais São João que Carnaval. Como vinho, sabe?
Há pessoas que estendem o Carnaval para os outros dias do ano. Avançam pela quaresma, lotam as churrascarias na Páscoa, arrocham no Corpus Christi, trieletrizam os festejos juninos e depois da odisseia pelos bares na Festa da Padroeira, a overdose dos Finados.
Adoro esse hibridismo cultural, esse catolicismo popular que me trouxe às rezadeiras, benzedeiras, parteiras, os chás e as romarias. Esse duplo pertencimento que lava as escadarias da Igreja do Bonfim de branco para brindar a Oxalá, que saúda Nossa Senhora da Conceição com um sonoro Odoyá, que é filho de Oxóssi e veste ? se com as armas de Jorge.
Que os altos dignitários não me leiam, mas esse ?carnaval? é ótimo, essa geleia geral que culmina nessa baianidade, nesse pertencimento, nessa identidade cultural.
Mas para por ai.
O Carnaval que atrai vultosos investimentos e que tornou ? se ?o maior espetáculo da terra?, incide sobre as pessoas como a magia de Midas. Excludente, transformou gente em ?Pipoca? e, dos ensaios pré-carnavalescos ao encontro dos trios na quarta feira de cinzas, o verão baiano é menos sol que coreografias.
A Baía, de todos os Santos e de fertilidade infinita, parece apresentar a cada Carnaval uma nova divindade: a Santa Bunda Nossa de Cada Dia!
E os devotos, que já são abundantes, desfilam a sua idolatria.
As bundas, pensantes, funcionam como comissões de frente de um enredo pífio. Uma cultura de massa, descartável, que assim como exilou inúmeros bons artistas e bandas nas prateleiras das lojas de discos de vinil, içou verdadeiras anomalias ao êxito.
Músicos alheios a partituras agridem melodias e harmonias. Mas impõem um ritmo. Um ritmo que, por si, não seria ultrajante se as letras não desafiassem o bom senso, não desabonassem o valor humano e opusessem ? se a ética.
Entendo a nossa pluralidade cultural e seria ingênuo de pensar a Bahia sem a sua musicalidade. De Caymmi aos Doces Bárbaros, de Riachão aos Novos Baianos, sei da magnitude da música produzida neste pedaço de Brasil. Acompanhei a irreverência do Camisa de Vênus, a serenidade de Elomar, o entusiasmo de Raimundo Sodré, a denúncia de Wilson Aragão, o samba poesia de Edil Pacheco.
Uma Bahia que pariu Glauber Rocha e Roberto Pires, que adotou Verger e Caribé e doou Jorge Amado ao mundo, não pode ficar refém de uma indústria cultural vil, canalha e fascista.
Sei que alguns podem pensar: Que bobagem! Com tanta coisa importante para se preocupar e estamos aqui pautando um tipo de música, inofensiva, que tem a única e precípua função de entreter, como algo maligno e visceral.
O problema não está apenas no gênero musical (que é paupérrimo), está no tipo de comportamento que advêm dela.
A apologia às drogas e ao tráfico e a violência contra a mulher são as mensagens mais evidentes. Na linguagem subliminar, fica uma concepção de identidade onde o desprezo à leitura e a educação formal é latente. E o que é pior, esse tsunami não se encerra no Carnaval. Ele acompanha a todos (sobretudo os jovens), dia a dia, nas correntes metalizadas, nos tênis, nas gírias, nas bermudas a um palmo do cós, enfim, num comportamento que baliza a construção desse novo tipo de civilização.
Talvez outras músicas, de outros tempos, tenham carregado um teor racista, machista e desabonador (O teu cabelo não nega, Nega do cabelo Duro, Cabeleira do Zezé, etc), mas nada se compara a excrescência produzida em ritmos alucinantes nos dias atuais. Tudo isso para nutrir meninos e meninas que repetiram a sétima série ou jovens que vão à faculdade com o mesmo compromisso que vão ao shopping, ou ainda, a meros mortais que, quando leem, leem apenas livros de autoajuda.
É por isso que eu não gosto de Carnaval.
Uberdan Cardoso
Professor de História
Vereador PT Sto Antonio de Jesus



