Formado na Argentina, casal de brasileiros entra no Mais Médicos

Ele saiu de Pirituba (zona norte da cidade de São Paulo) e ela de Santa Rosa (RS) para realizar um sonho em comum: estudar medicina. De famílias simples, Leonardo Fabrício Diniz Abreu, 32, e Tanira Remus Zamim, 28, não conseguiriam arcar com as despesas de uma faculdade particular no Brasil. Por isso, foram para a Argentina para poder estudar. Lá, se conheceram, se formaram e tiveram uma filha.De volta ao Brasil neste ano, ambos estão entre os 1.618 médicos selecionados na primeira rodada do programa Mais Médicos, do governo federal. Nos últimos anos, o que mais incomodou o casal foi se sentir forasteiro.

Foram oito anos longe da família e dos amigos, vivendo em uma terra desconhecida e com um idioma nem sempre compreensível.Tanira afirma que sofreu muito preconceito por ser uma “forasteira”. Conta ter visto muitos colegas brasileiros desistirem no meio do curso pela saudade de casa e pela incerteza em relação a poder um dia retornar e exercer a medicina no Brasil.Apesar das dificuldades, Leonardo diz que valeu a pena, pois conseguiu sobreviver com R$ 1.800 por mês enviados pelos pais para custear todas as despesas, como faculdade, moradia, transporte e comida.

“No Brasil, a mensalidade de qualquer faculdade de medicina não sai por menos de R$ 5.000. Não teria condições”, afirma.Ele diz não ver diferença de qualidade entre uma universidade particular argentina e uma brasileira.Leonardo e Tanira estudaram na mesma sala no Instituto Universitário Héctor Barceló, em Buenos Aires. Foram seis anos de curso e mais um de internato para então conseguir o sonhado diploma.

Após a graduação, o casal ficou mais um ano na Argentina para trabalhar e fazer um pé-de-meia. “Trabalhamos no interior da Argentina, com todas as dificuldades de equipamentos e exames que também vemos nas áreas mais carentes do Brasil”, diz ele.

Assim que retornou ao Brasil, em abril deste ano, o casal voltou a se sentir “forasteiro”, com os diplomas nas mãos e sem poder trabalhar.Eles contam que fizeram a inscrição nas provas das universidades federais que fazem a revalidação do diploma –já fizeram uma delas.

“O problema é que, se não passarmos, só poderemos prestar no ano que vem. É mais um ano parado, sem trabalhar”, diz Leonardo.Com o fim das economias, Leonardo e Tanira agora contam com a ajuda dos pais para sobreviver.Para eles, o programa Mais Médicos foi uma forma de ingressar rapidamente no mercado de trabalho e ainda ter uma bolsa de R$ 10 mil.

Balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta semana aponta que, dos 1.618 médicos selecionados na primeira rodada do programa, 164 são como Leonardo e Tanira, brasileiros que se graduaram em outros países.Esses 164 brasileiros estão contabilizados entre os 522 profissionais que atuam no exterior –os demais 358 são estrangeiros.Assim como os demais candidatos, Leonardo e Tanira assinalaram seis opções de locais onde tinham interesse em trabalhar.

A primeira era São Paulo, para “não precisar mudar de casa nem modificar a rotina”.Os dois se consideram sortudos, pois foram contemplados com a primeira opção, mas ainda não sabem exatamente em qual bairro serão alocados. “Ganhamos a oportunidade de o nosso país abrir novamente a porta para nós”, afirma Tanira. (Folha)