Sobre Facas, Gandhi e Bolsonaro!

Texto do Professor Uberdan Cardoso

A violência tem sido, talvez, a pauta mais recorrente do noticiário mundial. Num clima de paz, raro na história da Humanidade, a violência atualmente não se apresenta através de Guerras Mundiais ou conflitos localizados de grande porte, como foram no século XX as Guerras da Coréia, do Vietnã e da Bósnia, os conflitos árabe israelenses ou ainda as Revoluções na Rússia, China e Cuba e os tensos processos de Descolonização na África e Ásia.
A violência hoje é narrada por atos de terrorismo e também, como mais nos assusta, nos seus aspectos urbanos.
Longe de mim querer tratar aqui das causas da violência, que tem suas matrizes muito bem explicadas pela Psicologia, Sociologia, Antropologia e áreas afins e mais distante ainda estarei de explicar a violência pelo senso comum.
Aliás, não tenho como proposta explicar a violência sobre nenhum viés, apenas trazer algumas reflexões e que não tratam de guerras ou revoluções e sim de atentados contra personalidades que marcaram a história da humanidade.
Pacifista convicto e que usava a Não Violência como artigo número um do seu credo, “Mahatma” Gandhi foi assassinado por Nathuram Godse em 1948; em 1968, o pastor batista Martin Luther King Jr foi assassinado por James Earl Ray; em 1980 Mark Chapman assassinou John Lennon, justo depois da gravação da música Imagine, onde ele propunha a Paz; em 1981 foi a vez de Ali Agca atentar, sem sucesso, contra a vida do Papa João Paulo II e em 1995, depois de ganhar o Prêmio Nobel da Paz, Itzak Rabin, primeiro ministro de Israel, foi assassinado por Igal Amir.
Claro que mil páginas não dariam para enunciar os tantos crimes bem ou mal sucedidos que esta minha memória pode trazer ao papel mas, de propósito, trago aqui alguns exemplos de atentados cometidos contra PACIFISTAS!
Fácil entender que recorro a este texto, provocado pelo atentado contra o senhor Jair Bolsonaro, candidato a Presidente da República alicerçado, justamente, por combater a violência pela violência.
Em agosto de 1954, alertado do atentado contra o seu adversário Carlos Lacerda que levou a óbito o Major Aviador Rubem Vaz, o então Presidente Getúlio Vargas teria dito:
“Os tiros contra o Lacerda atingiram o meu governo pelas costas…!”
E o resultado todos já sabem!
Em meio a uma espiral de crise institucional, Vargas se mata, o vice renuncia, o General Lott dá um golpe preventivo, Juscelino se elege, seus sucessores não terminam o governo (um por renúncia outro por deposição) e a saída para o país, mui desonrosa, foi o golpe que matou a Democracia e instaurou a Ditadura.
Claro que a Democracia reacendeu a sua chama, se edificou sob uma Constituição Cidadã, reestabeleceu eleições diretas, ampliou o direito de voto mas convive, permanentemente, com o fantasma da Ditadura.
E eis que, uma facada, cinge a democracia de luto e atinge a todos pelas costas!
O atentado contra a vida de Bolsonaro não deve, mas pode canonizá – lo, embora já o tenham içado ao status de “Mito” e transbordado o antirracionalismo, a violência que ele prioriza como sujeito e objeto da sua ação, agora o vitima.
Bolsonaro não gestou a violência no país, tampouco é culpado por seus índices crescentes. Mas fez questão de surfar na onda do discurso fácil, propondo soluções simples para problemas complexos. Terceirizou os temas que não domina (E são muitos!), e armazenou na ponta da língua as respostas rápidas e, geralmente, truculentas, sobre situações controversas.
Bolsonaro é um ultra conservador. E não há problema em ser ultraconservador! Há problema em ser racista, misógino e homofóbico. Mas tem quem o diga que não, que ele apenas defende os valores da família, da pátria e de Deus.
Ele não é um Pacifista. Defende o torturador Brilhante Ulstra, defende que morra uns trinta mil, defende o fuzilamento da Petralhada enfim, e lidera as pesquisas no atual cenário sem a presença do ex presidente Lula. Ele não fundou o ódio, mas se alimenta dele numa voracidade sem fim, como um Leviatã, assombrando a tantos.
Bolsonaro não merecia ser ferido, nenhum ser humano merece isso. Mas ele tem culpa, sim, pela facada que o feriu.
Torço para que ele se recupere logo, para que o seu corpo recupere a saúde necessária para uma longa vida. Ele merece a sorte dos nazistas que envelheceram. Nada maior do que a dor da Consciência.
E ao rapaz que o feriu, à faca, (ainda bem que não foi à bala), que seja preso e cumpra a pena. Ele também não merece uma Facada, como responderia Bolsonaro em uma entrevista ao Jornal Nacional.

Uberdan Cardoso – Santo Antonio de Jesus – BA